quarta-feira, 30 de maio de 2012

Anjos, Velhos e Novos


Quando alguns leitores de 1955 leram os trechos respeitantes ao exército espectral de Dunharrow, instrumentalizado por Aragorn para derrotar os corsários de Umbar, no recém-publicado livro The Return of the King, de J. R. R. Tolkien, a terceira parte da trilogia de literatura fantástica The Lord of the Rings, deverão ter-se lembrado naturalmente dos ainda eminentes “Anjos de Mons”, os reforços celestiais que acudiram a um pequeno corpo expedicionário britânico, ajudando-o a fugir com segurança das mais numerosas tropas alemãs, na batalha travada perto da cidade belga de Mons, a 23 de Agosto de 1914.
Essa soldadesca sobrenatural era constituída por arqueiros ingleses mortos na Batalha de Agincourt, ocorrida a 25 de Outubro de 1415, no local onde hoje se situa a contemporânea cidade e comuna de Azincourt, no Norte de França. Nessa batalha – episódio da famosa “Guerra dos Cem Anos” (na verdade, durou cento e dezasseis anos) –, o jovem rei inglês Henry V derrotou o numeroso exército francês liderado por Charles I de Albret, condestável da França, inaugurando um interregno na imperante hegemonia francesa; a fortuna de ser-se salvo por corajosos companheiros de armas, provenientes do outro mundo, inspirou, pois, a imaginação inglesa nas trincheiras da Primeira Grande Guerra.
            O relato estreou-se a 29 de Setembro de 1914 no jornal vespertino inglês The Evening News (o primeiro jornal do mundo a ter telefone), editado nessa altura pelo jornalista Walter J. Evans, mas não menciona nenhuns anjos; com efeito, a notícia, intitulada The Bowmen, descreve de modo explícito que os agentes sobrenaturais «cintilantes» são os arqueiros fantasmas de Agincourt, liderados por São Jorge (de modo geral, os santos são personagens que não gozam de grande popularidade no culto inglês, mas, enquanto ícone nacionalista, São Jorge beneficiava do afecto popular). O bosquejo dos archeiros fantasmagóricos como sendo anjos foi desenhado pelos eclesiásticos que, poucos meses após a publicação da notícia, disseminaram-no entre as suas paróquias sob a forma de panfletos. Em principal, o relato intitulado A Troop of Angels, publicado a 3 de Abril de 1915 no jornal paroquiano Hereford Times do condado de Herefordshire, foi decisivo em estabelecer a identidade angélica dos intervenientes além-tumulares: nessa narração, uma jovem chamada Miss Marrable conta as experiências que dois soldados ingleses, presentes no corpo expedicionário salvo por “anjos” em Mons, lhe confidenciaram, inclusive uma descrição de como as tropas alemãs se paralisaram pelo terror ao serem acostadas pelo magote miraculoso.
Diversos jornais britânicos também reproduziram o texto original, discorrendo sobre ele com as mais imaginativas interpretações – chegou a revelar-se que o exército alemão ocultara a informação de que se encontraram flechas nos corpos dos soldados mortos a 23 de Agosto de 1914. Isolado no onfalo da voragem dessecretista, o autor da notícia continuava a ser interrogado por leitores ávidos de mais pormenores, porém o texto não era notícia nenhuma, mas um conto: uma ficção inventada pelo conhecido escritor galês Arthur Machen, que, desde 1910, trabalhava como jornalista para o The Evening News.
Machen sempre disse que o seu conto The Bowmen era apenas uma ficção, sem nenhum referente real, mas isso não impediu que a lenda dos “Anjos de Mons” ganhasse com rapidez um ímpeto e uma dimensão incomuns, firmando-se com solidez na psique popular como um verdadeiro episódio de intervenção divina – aliás, não faltou quem insultasse o próprio autor por tentar denegrir com calúnias a verdade sobre os “anjos patrióticos” e até alguns soldados ingleses, sobreviventes da Batalha de Mons, contaram à impressa que os “anjos”, de facto, os ajudaram a retirar-se do campo de batalha. Também em 1915, o conhecido escritor conservador Edward Harold Begbie publicou um livro intitulado On the Side of Angels, no qual acusou Machen de lucrar com verdadeiras visões espirituais, transmitidas telepaticamente por desgraçados soldados na frente de batalha e que ele sintonizara.
Em tempos de carestia, como o da Primeira Grande Guerra, é natural que os indivíduos desesperados sintam maior disponibilidade para encontrarem conforto junto de ideias marginais que refutariam em melhores circunstâncias. Em Portugal, por exemplo, o fenómeno das aparições de Fátima, cuja data principal de 13 de Maio de 1917 se inscreveu na sequência da partida do corpo expedicionário português para França, pede para ser cotejado com o dos “Anjos de Mons”.
Hoje, a secularização da sociedade não permitirá, certamente, um levantamento de massas de ordem similar em torno de um tema de natureza religiosa, mas os mecanismos que promovem a aceitação do inverosímil também funcionam com o pensamento político, como comprovou a emergência dos nacionalismos durante o século XX. Ao contrário dos nossos antepassados, somos demasiado rebuscados para acreditarmos nas chamadas grandes mitologias formativas, mas, por outro, talvez sejamos mais lestos que eles a acreditar em informação contrafactual desde que ela vá ao encontro daquilo que sentimos, porque, hoje, os sentimentos substituíram os factos e qualquer ficção difundida sem análise poderá ser, tal como o conto de Machen, lida como sendo verdade histórica. 
Por um lado não duvido de que isso acontecerá, mais tarde ou mais cedo. Por outro, prefiro não ser testemunha dos “anjos” que o século XXI poderá trazer.

Crónica publicada originalmente no número doze da Revista BANG! (Saída de Emergência).

terça-feira, 29 de maio de 2012

Nomeações para troféus "Central Comics"


Estou nomeado para três troféus de banda desenhada Central Comics: 1) o meu álbum O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa, está nomeado para Melhor Publicação Independente; 2) o meu álbum É de Noite Que Faço as Perguntas (Saída de Emergência, 2011), escrito por mim e desenhado por Jorge Coelho, João Maio Pinto, André Coelho, Daniel Silvestre da Silva e Richard Câmara, está nomeado para Melhor Álbum Nacional; 3) e com esse livro estou nomeado para Melhor Argumentista Nacional.
O meu amigo Jorge Coelho também está nomeado para Melhor Desenhador Nacional pelo seu trabalho nesse título.



Tertúlias e autógrafos para o próximo fim de semana


Atenção, leitores: na próxima sexta-feira, dia 1, às 19H00, no Espaço Autor da livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, serei o convidado de uma sessão do Clube de Leitura Bertrand do Fantástico (tertúlia literária organizada e moderada por Rogerio Ribeiro) cuja conversa, sempre em volta de um livro diferente todos os meses, será sobre O Clube Dumas de Arturo Pérez-Reverte e, claro, sobre o meu trabalho e o meu novo livro Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência).

No dia seguinte, dia 2, sábado, a partir das 15H00, estarei na XIVª Feira do Livro de Leiria (no Centro Cultural Mercado Sant'ana:
Avenida Combatentes da Grande Guerra - Largo de Sant'Ana, em Leiria) para falar sobre o meu novo livro e assinar exemplares. (Passem a palavra e apareçam.)


segunda-feira, 28 de maio de 2012

O restaurante Abadia do Palácio Foz


É na Praça dos Restauradores, em Lisboa, que se ergue o edifício histórico conhecido como Palácio Foz, embora esta designação, relacionada com o título nobiliárquico do seu segundo proprietário, Tristão Guedes de Queirós Correia Castelo Branco, 2º Conde e 1º Marquês da Foz (na altura administrador da Real Companhia do Caminho-de-Ferro), não seja, provavelmente, a mais conforme à razão, posto que Castelo Branco, que comprou o palácio em 1889 a D. Helena de Vasconcelos e Sousa Ximenes, 6ª Marquesa de Castelo Melhor, pouquíssimo usufruiu dessa residência, vendo-se obrigado pela sua débacle financeira a leiloá-la em Maio de 1901. Por outro ponto de vista, existe a ideia de que talvez seja mais ajustado chamar-lhe Palácio Castelo Melhor: dignidade honorífica da família que mandou construi-lo em finais do século XVIII (entre as datas propostas para o início das obras a mais imparcial é a de 1777, não obstante os trabalhos, interrompidos durante o período das invasões francesas, terem terminado somente em 1858).
 Em meados do século XVIII, a área sobre a qual se espraia actualmente a Praça dos Restauradores fundava-se num terreno mais ou menos agricultado, sulcado por ribeiras e apelidado de "hortas" do Valverde (vetusta denominação para o vale do Rossio e seus arrabaldes que já existia, no mínimo, desde o século XIV) ou de "hortas da cera", consistindo numa mancha rural que alastrava para Norte, mais ou menos até ao local onde se encontra a Praça Marquês de Pombal.


Abreviando, uma vez desvirtuado da sua função residencial, o Palácio Foz (ou Castelo Melhor) foi comprado por José Rodrigues de Sucena1º Conde de Sucena, em 1910, que de imediato alugou diversos dos seus aposentos para ofícios e serviços tão variados como os de modista, fotógrafo ou ourives; é, pois, desse decénio que datam lojas como a sumptuosa Pastelaria Foz (inaugurada em Abril de 1917), que ocupava múltiplas alas do rés-do-chão e das caves, o mítico Club Maxim's e o Central Cinema - todos albergados em múltiplas dependências do palácio. O filho de Sucena, também chamado José Rodrigues, 2º Conde de Sucena, falhou obrigações contraídas com a Caixa Geral de Depósitos e, mais uma vez, o Palácio Foz foi leiloado, sendo vendido posteriormente à Fazenda Pública, em 1940, e integrado no património nacional. Aí se instalou, sete anos depois, o Secretariado Nacional de Informação (antigo Secretariado de Propaganda Nacional). Actualmente, o Palácio Foz é a sede do Gabinete Para os Meios da Comunicação Social, conservando ainda o seu esplendor oitocentista; em grande parte o legado das renovações imaginadas por Castelo Branco que, para o efeito, reuniu artistas ilustres como o arquitecto José António Gaspar, o pintor Columbano Bordalo Pinheiro, o escultor José Simões de Almeida e o escultor e entalhador Leandro Braga, autor da grandiosa galeria, ao estilo francês, que é rematada por um fabuloso trompe l'oeil da autoria do arquitecto, pintor e cenógrafo italiano Luigi Manini.

Subtérrea ao Palácio Foz encontra-se uma "abadia mistérica" na qual avultam o revivalismo arquitectónico da época, assinalado pelo entrecruzar dos estilos neo-gótico e neo-manuelino, e o maçonismo. Com efeito, pode especular-se com segurança que o Restaurante Abadia, também inaugurado em 1917, desenhado pelo arquitecto Rosendo Garcia de Araújo Carvalheira, com colaboração dos escultores José Neto e Costa Mota, tenha sido um espaço multi-dimensional, apresentando-se como restaurante e local de tertúlias maçónicas, em ocasiões distintas.
A planta do Abadia encontra-se repartida em divisões idiossincráticas: o Coro, com um varandim talhado com grande pormenor em madeira e no qual são profusas as alcachofras enlaçadas por cordas de marinheiro, que apresentam as respectivas roldanas, e onde ainda é possível observar uma estatueta de um dragão com seios que evoca, claramente, a águia com seios que se encontra à varanda do chamado "laboratório" do terceiro andar do Palácio da Quinta da Regaleira, em Sintra; o Claustrum, ou "taberna vínica", decorado com cachos de uvas com folhas de oliveira e chão xadrezado; o Refectorium, levantado ao estilo cisterciense peninsular, no qual se pode ver nos capitéis das colunas uns baixos-relevos alusivos às fábulas do escritor francês seiscentista Jean de La Fontaine (como a da raposa que contempla deliciosos cachos de uvas que é impotente para alcançar e que acaba por desdenhar, convencendo-se a si própria que estão verdes); a Capela, pequena divisão complementar ao refeitório. Pontualmente, nas paredes do Abadia, encontram-se celas ou nichos.

                       
Outros elementos artísticos - e simbólicos - determinam a decoração: rodas de lemes com efígies dos navegadores portugueses Pedro Álvares Cabral e Vasco da Gama; uma fonte de "coral" suspeita de ocultar uma passagem para os subterrâneos de Lisboa; diversas andorinhas e pombas; cabeças de elefantes numa mísula claustrina, suportadas por uma personagem que enverga um barrete frígio; e vinte e quatro bustos de maçons e maçonas nos cachorros das paredes Norte e Sul do Refectorium - alguns com as jóias distintivas dos seus graus.

         
Uma sociedade para-maçónica que conviveu amiúde no Restaurante Abadia (além de continuar a frequentar os locais em que já se reunia, como as caves do Teatro Condes, em frente ao Palácio Foz - o jornalista e escritor Raul Brandão refere, a dada altura, nas suas Memórias que as caves do Teatro Condes foram o berço da queda do regime monárquico de D. Manuel II e a implementação da República) foi o excêntrico Clube dos Makavenkos: agremiação "gastronómico-filantrópica" à qual pertenceram, entre outros, o almirante Francisco Joaquim Ferreira do Amaral, o médico Azevedo Neves, o pintor, ceramista e caricaturista Rafael Bordalo Pinheiro, o poeta e cronista Raimundo Bulhão Pato, o supracitado Rosendo Carvalheira e o empresário Francisco de Almeida Grandela, um dos fundadores do clube (em 1884).
A empresa (ou divisa) do Clube dos Makavenkos foi um punho fechado, acompanhado pelo mote da Ordem da Jarreteira - «honni soit qui mal y pense» -, e o seu patrono foi a personagem veterotestamentária Noé: célebre prior da vinicultura, tendo plantado a primeira videira pós-diluviana. De facto, foram íntimas as ligações de Grandela e de outros Makavenkos, como o vinicultor José Camilo Alves (da famosa marca de vinhos Caves Velhas), a lojas maçónicas das regiões vinículas de Fanhões e Bucelas - alguns elementos das quais proclamaram a república no dia 4 de Outubro de 1910, nos Paços do Concelho de Loures (o proclamador foi Augusto Moreira Feio): um dia antes dela ser proclamada por Eusébio Leão na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Independentemente de outros significados simbólicos que possuam as videiras que adornam a Abadia, elas também consistem certamente numa evocação dessas ligações enológicas; talvez residindo no facto de Noé, patrono do clube, que no livro bíblico Génesis recebeu de uma pomba um ramo e folha de oliveira como prova de terra seca, a chave para interpretar a razão pela qual os cachos de uvas se apresentam com folhas de oliveira: são uma alegoria de, pelo menos, duas luzes, a das candeias alumiadas por azeite, que afastam a treva, e a proporcionada pelo domínio da natureza hostil através da vinicultura.

  
Foi Josué dos Santos, amigo de Grandela e cozinheiro (aparentemente, também fora saltimbanco e ilusionista), que "desvendou" na contracapa do livro Memórias e Receitas Culinárias dos Makavenkos (publicado em 1919 pela Marginália Editora e escrito pelo próprio Grandela) a misteriosa origem do nome do clube: «"Makavenkos" eram um povo que existia aqui, no nosso país, e províncias vascongadas, vindo do Japão, das Ilhas Curilas, muito antes da civilização grega, antes do desaparecimento da Atlântida, e que tinham uma seita que professava uma espécie de culto pela mulher esbelta, mundana, com quem conviviam e protegiam aproveitando a mesma para fins de utilidade geral». Este resumo é, como é óbvio, satírico, mas seja qual for a sua origem, sabe-se que o nome Makavenkos foi adoptado como verbo pelos elementos do clube: era às sextas-feiras que esta sociedade "secreta" se reunia para as suas «makavenkadas» ou para «makavenkar».
A boémia dessas epícuras reuniões adquiriu contornos de anedotário, com descrições de danças desempenhadas por belas mulheres despidas, ao som de música tocada por instrumentistas de olhos vendados, e um gradiente generalista de libertinagem. Conhecido é o suposto lado revolucionário do clube (ou de alguns dos seus membros), já comunicado por Brandão, mas menos falado é o seu papel filantropo - subsidiado generosamente por Grandela, sob o qual foram realizadas todas as diligências para construir-se um sanatório para raparigas indigentes e tuberculosas em Cabeço de Montachique, com traça de Carvalheira. As obras foram interrompidas abruptamente em 1919, por culpa da crise económica provocada pela Grande Guerra à qual Grandela não foi imune. O imóvel foi então doado à Assistência Nacional aos Tuberculosos que não o desenvolveu.

  Os testemunhos iconográfico e arquitectónico do Abadia encerram, ainda, a intenção de cifrarem-se como um florilégio de monumentos míticos portugueses: é impossível não ver nas salas do restaurante excertos dos mosteiros de Santa Maria da Vitória e de Santa Maria de Belém, assim como o Convento de Cristo. Na época medravam os revivalismos, como o apelidado neo-manuelino (o arquitecto Raul Lino, considerado o "pai" da "casa portuguesa", chamava depreciativamente a esta corrente estética o "estilo neo-manuelinho") que marcou a construção da fachada da estação ferroviária do Rossio, desenhada pelos arquitectos José Luís Monteiro e Adães Bermudes e inaugurada em Novembro de 1890. A Estação da Avenida, como foi originalmente chamada, deu que falar, porque foi pioneira na instrumentalização num edifício público de um estilo arquitectónico até aí considerado apanágio de edifícios reais e religiosos. Ora, o Restaurante Abadia relaciona-se com essa ruptura, pois no início do século XX ainda era comum a maioria das casas de Lisboa serem projectadas pelos próprios empreiteiros e não por arquitectos. O interesse de Carvalheira neste projecto foi certamente mais amplo que o mero compromisso profissional, mas o simples facto de tê-lo feito não deixou de assinalar a importância que um desenho de autor poderia ter para benefício de um equipamento comercial ou público, de imediato um efeito da tónica impressa pelo republicanismo na criação e valorização de espaços civis autênticos. 

 
(Fotos de Gisela Monteiro.)

domingo, 27 de maio de 2012

"Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes" nas livrarias

O meu novo livro, Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência, 2012), já se encontra nas livrarias.
«Em Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, David Soares convida a uma viagem surpreendente pelo lado negro da História, da Ciência, do Oculto e do Bestiário: quatro pilares de saberes secretos, como a Alquimia e a Cabala, mas também de criaturas como o grifo do Infante D. Pedro e as gárgulas das catedrais medievais, assim como experiências com cabeças decepadas, rituais de feitiçaria, pragas de dança e vampiros lisboetas. A profusão de temas, reflexões e desmistificações abrangidos será uma fonte inestimável de consulta para todos os leitores empenhados em saberem sempre mais sobre aquilo que os rodeia. Numa união erudita entre a enciclopédia e o livro de ensaio, Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes é um livro repleto de histórias reais e factos espantosos que vos desvendarão um mundo negro, mas admirável.» 

História



Ciência



Oculto



Bestiário





sábado, 26 de maio de 2012

Acrotomofilia Zoófila (Requintada) em "Gorefilia" de Holocausto Canibal



Gorefilia, o novo álbum da banda portuguesa de death metal/grindcore Holocausto Canibal, já se encontra disponível: consiste num disco conceptual sobre a temática das chamadas parafilias, designação generalista para todos os comportamentos sexuais desviantes da norma, desde as práticas mais inócuas às mais extremas. Considerando que este é um disco de Holocausto Canibal, as parafilias exploradas no universo lírico das canções são as mais extremas possível, apresentando visões violentas de horror sexual e visceral que não são, de maneira nenhuma, indicadas para quem tem corações e estômagos frágeis. Musicalmente, Gorefilia é muito sólido, fazendo lembrar, e bem, os Carcass de Reek of Putrefaction, por exemplo.

Por gentil convite da banda, uma das músicas tem letra de minha autoria: intitula-se Acrotomofilia Zoófila (Requintada) e, como o nome indica, consiste numa observação (com muito humor negro, claro), sobre a prática da acrotomofilia; ou seja, atracção sexual por indivíduos amputados. Neste caso, por animais amputados, mas o «requintada» do título denuncia que algo mais complexo se passa.

Amantes de sonoridades pesadas, Gorefilia é para vocês: atrevam-se a ouvir um disco (verdadeiramente) extremo. Pela parte que me toca, estou muito contente com a música composta para a letra que escrevi: agradeço, pois, à banda pelo convite e faço votos para que Acrotomofilia Zoófila (Requintada) seja um dos pontos altos nos próximos concertos.


ACROTOMOFILIA ZOÓFILA (REQUINTADA)
 
Desmoralização sexual ritualizada –
sofrimento que rima com regozijo.
Acrotomofilia zoófila (requintada)
é que é o meu estilo de bestialismo.

Capturo pequenas criaturas
e delas faço abreviaturas
(para sevícias sexuais).

Apaixonada penetração venereal.
(Em busca de prazeres sofisticados…)
Irrigando o meu líquido seminal.
(Em corpos mortos desconjuntados…)

Desbarates das torturas
que articulo por suturas
(grotescos bonecos animais).

Operação sensualista organizada –
flebotomia que leva à consumpção.
Acrotomofilia zoófila (requintada):
orgasmos com animais de estimação.

Capturo pequenas criaturas
e delas faço abreviaturas
(para sevícias sexuais).

Extirpação de membros desproporcionados.
(A procura pela forma irrepreensível…)
Pernas e braços e caudas são desarreigados.
(Com imaginação nada é impossível…)
Velhacaria sexual e truculência.
(Não há mascote que eu não apanhe…)
Anestesio-as, mas sem violência.
(Aplicando clisteres de champanhe…)

Vidas por um fio – cerimonial doentio.

Desbarates das torturas
que articulo por suturas
(grotescos bonecos animais).
    

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Arco do Triunfo da Rua Augusta


O Arco do Triunfo da Rua Augusta foi concebido pelo arquitecto "pombalino" Eugénio dos Santos, em 1759, mas somente em 1815 se ergueram as suas colunas; vinte e oito anos depois (durante o governo de António da Costa Cabral), foi aberto um concurso público para a construção do coroamento destas e, no ano seguinte, foi escolhido para o efeito o projecto do arquitecto Veríssimo José da Costa. Com contribuições escultóricas dos artistas Anatole Célestin Calmels, Vítor Bastos e Leandro Braga (assistente de Calmels), iniciadas em 1873, o monumento foi finalmente inaugurado dois anos depois.

Enquanto escultor e entalhador, Braga trabalhou com clientes de prestígio, realizando peças diversas para locais como o Palácio Foz, na Praça dos Restauradores, em Lisboa, e o Chalet Biester e o Palácio da Quinta da Regaleira, em Sintra. No conjunto escultórico do Arco do Triunfo da Rua Augusta, Calmels esculpiu as três personagens cimeiras que, de modo mais ou menos consensual, têm sido interpretadas como sendo três alegorias: a Glória coroando o Génio e o Valor. Com efeito, a coroação das alegorias remete para os tratamentos artísticos das coroações dos iniciados pela Beatitude em certos ritos iniciáticos; interpretação "esotérica" reforçada pela existência de uma ara situada atrás da personagem central e que sustenta mais duas coroas de louros (à espera de outros iniciados). A personagem à esquerda do observador assemelha-se às alegorias da Fortaleza que têm como modelo a deusa grega Atena (como a que decora o túmulo do Papa Gregório XIII - cujo nome baptizou o calendário gregoriano -, esculpida pelo artista italiano Camillo Rusconi). A personagem à nossa direita também remete para as costumeiras reproduções do Génio das Artes, que faz-se acompanhar por instrumentos musicais, parafernália de pintura e até livros (todos elementos existentes nesta escultura). Outra interpretação que pode ser feita sobre as anteriores, e que não as desvirtua, é a de que as personagens masculina e feminina que estão a ser coroadas também compõem uma alegoria maçónica para o Sol e para a Lua, da mesma ordem que, por exemplo, as obras escultóricas ou pictóricas que mostram, lado a lado, Apolo e Ártemis.


Aliás, esta leitura apolínea corresponde-se com um detalhe curioso, somente visível aos visitantes do monumento, in situ: sob uma das asas, a personagem masculina oculta uma estatueta de um homem barbado, que agarra um bastão. Várias interpretações têm sido avançadas para explicar a identidade desta personagem, desde a que consiste numa alegoria quinto-imperial até à de que se trata de uma estátua de Ulisses, logo uma alusão à lenda da sua fundação da cidade de Lisboa. A minha humilde proposta para a decifração deste enigma é a de que talvez seja uma criação de alguma maneira relacionada com a estátua romana de Constantino como Apolo, deus do Sol, que era conservada no interior do Milion de Constantinopla - o pavilhão formado por dois arcos do triunfo, mais uma cúpula, a partir do qual eram medidas todas as distâncias entre as cidades do império e a Nova Roma. Nos dias de triunfo, essa estátua de Constantino-Apolo era levada numa quadriga até ao hipódromo e todos podiam ver a pequena figura alada que ela trazia na mão: o espírito-guardião da própria cidade. À luz desta informação histórica, não é nenhuma impossibilidade que a estatueta quasi-oculta personifique em pedra o "espírito-guardião" de Lisboa. Não faz sentido? Faz sentido? É um contributo que deixo para este debate.

As esculturas de Bastos no Arco do Triunfo da Rua Augusta são, da esquerda do observador para a direita: uma alegoria do Rio Tejo, uma estátua de Viriato, outra de Vasco da Gama, uma de Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal, uma de D. Nuno Álvares Pereira e uma alegoria do Rio Douro. A tradução da inscrição em latim («virtvtibvs maiorvm vt sit omnibvs docvmentvm. Pecvnia pvblica dicatvm») que pode ler-se no pódio é «às virtudes dos maiores, para que a todos sirva de ensinamento. Dedicado a expensas públicas».
No que concerne a esta inscrição, chamo a atenção para o que Justino Mendes de Almeida apontou no Dicionário da História de Lisboa na entrada que escreveu sobre o Arco do Triunfo da Rua Augusta: «Curiosa a "guerra" filológica travada entre os autores do projecto final, que redigiram um texto, e a Academia das Ciências de Lisboa, com relevo para Augusto Soromenho e D. José de Lacerda, que impuseram outro bem diferente. Ainda assim, os primeiros "vingaram-se": onde os académicos escreveram SINT, em concordância com "virtudes", os escultores registaram SIT, em ligação com a ideia genérica de "monumento", subentendida». É um sinal de que as boutades das quais a história também se faz não podem iludir os hermeneutas.  

Vale ainda a pena cotejar estas estátuas do Tejo e do Douro com as homónimas que se encontram no passeio da Avenida da Liberdade, da autoria do escultor setecentista Alexandre Gomes: destinadas a um chafariz que nunca chegou a ser construído no Campo de Santana, foram adornar o célebre (e desaparecido) Passeio Público (abrangia a área entre as actuais Praça D. João da Câmara - em frente à estação ferroviária do Rossio - e Praça dos Restauradores e terminava onde hoje a Rua das Pretas encontra a Praça da Alegria. Notem que a nossa Praça da Alegria era, na altura, a Praça da Alegria de Cima, pois no extremo Norte do Passeio Público, para lá do muro, ficava uma praça chamada Praça da Alegria de Baixo). Construído na segunda metade do século XVIII, após o terramoto de 1755, o Passeio Público pouco tinha de "público", pois era muralhado e nele só entrava a elite. Em suma, era um grande parque, cheio de fontes e diversos cursos naturais de água que nessa época ainda sulcavam o solo daquilo que viria a ser, no final do século XIX, a Avenida da Liberdade. O principal pugnador da Avenida da Liberdade (contra quase toda a opinião pública) foi Rosa Araújo, o único presidente da câmara de Lisboa que foi pasteleiro antes de ser político. O projecto da Avenida da Liberdade foi gizado pelo arquitecto Frederico Ressano Garcia, que também projectou a Praça Marquês de Pombal e a Avenida 24 de Julho. Hoje pouquíssimo resta dos inúmeros fontanários e estatuária do Passeio Público. Algumas peças encontram-se, hoje, no Museu da Cidade (Palácio Pimenta), no jardim do Miradouro de São Pedro de Alcântara e, como vimos, no caso das alegorias do Tejo e Douro, na Avenida da Liberdade.
       
A esta altura vale a pena pensar um pouco sobre o que é, afinal de contas, um arco do triunfo. Em síntese, quando um imperator romano operava uma grande vitória sobre os exércitos bárbaros, o senado concedia-lhe o direito de realizar uma marcha triunfante, na qual ele, à cabeça do seu exército, entrava na cidade com espectacularidade. De maneira geral, estas marchas - triunfos - seguiam a chamada via sacra, que dava entrada em Roma pelo lado meridional: ou seja, deixando o Coliseu para trás, ao longo do Mons Palatinus (do qual deriva a nossa palavra palácio - os palácios eram apenas as casas das famílias de elite erguidas no Monte Palatino) na parte mais velha da cidade, até ao famoso Fórum e em direcção ao templo dedicado a Júpiter no Monte Capitólio. Nesse templo penduravam-se as grilhetas dos prisioneiros, expunha-se o espólio, do qual a parte mais simbólica eram sempre os portões partidos das cidades conquistadas, e faziam-se os sacrifícios e festividades rituais. Em sequência, os imperadores mandavam construir arcos dos triunfos ao longo da via sacra, de modo a que as suas conquistas, como é óbvio, não fossem esquecidas - e, de facto, todos os arcos dos triunfos (ou seja, arcos construídos para lembrar os triunfos dos imperadores), cumeados por alegorias da Vitória (e outras) e decorados com baixos-relevos que narram histórias de campanhas militares bem-sucedidas, são arquitectados ao jeito dos portões das cidades: são as entradas triunfantes dos cidadãos mais ilustres; posto que possuir o estatuto de cidadão romano, pelo menos até ao século III, a partir do qual ele passou a ser automático e universal para todos os indivíduos do império de molde a atender à escassez de legionários, era uma honra por mérito próprio.



Na antecâmara do terraço do Arco do Triunfo da Rua Augusta, onde se encontra o mecanismo do relógio que volta a face para a Rua Augusta.


No meu romance Lisboa Triunfante (Saída de Emergência, 2008), o Lagarto perde para a Raposa: mas ei-lo, no mecanismo do relógio do Arco do Triunfo da Rua Augusta, a contar a passagem do tempo, à espera do momento ideal para emergir com nova pele.





Fotos de Gisela Monteiro: http://www.flickr.com/photos/agmonteiro.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Pré-venda de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"


O meu Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes já se encontra disponível para pré-venda na loja online das edições Saída de Emergência: se clicarem na capa poderão ler as primeiras sessenta e seis páginas do livro (pertencentes à História, a primeira via deste trabalho) e descobrirem quais os segredos sombrios e factos arrepiantes - e verdadeiros - que se escondem atrás de títulos como "Padre António Vieira Abolicionista", "Inspirados pela Suástica", "O Verdadeiro 'Grito do Ipiranga'" e "Especiarias Orientais e Cruzes Portuguesas".



terça-feira, 22 de maio de 2012

Crítica a "O Pequeno Deus Cego"


Vale bem a pena ler esta excelente crítica de Pedro Vieira de Moura a O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), publicada no seu weblog LER BD. O Pedro diz que o tema central do livro é o Conhecimento e envereda por essa via para analisá-lo... Ora, o tema central de O Pequeno Deus Cego relaciona-se com o conhecimento, sim, mas é outro: o Crescimento - o crescimento através da Iniciação (crescer das Trevas para a Luz). Não quero desvirtuar a leitura que o Pedro fez, somente esclarecer, enquanto autor, qual é o tema central do livro - que, claro, permitirá sempre mais que uma leitura.

Na imagem: clímax de O Pequeno Deus Cego, no qual a carne desprende-se dos ossos...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Os dois Pratts


Acaba de ser lançado um novo fanzine de homenagens Efeméride, criação de Geraldes Lino, insigne divulgador, editor e investigador de banda desenhada, dedicada às mais importantes personagens do universo bedéfilo. Este novo número é dedicado a Corto Maltese, criado pelo autor italiano Hugo Pratt, e conta com bandas desenhadas de diversos autores portugueses.

Participei em conjunto com o desenhador Jorge Coelho, numa história escrita por mim e intitulada Os Dois Pratts: uma observação hermética sobre algumas coincidências essenciais na vida e carreira de Pratt (iniciado na Maçonaria em 1976, na loja veneziana Hermes) e a sua ligação insuspeita ao Monstro de Frankenstein.

Poderão encontrar esta edição do fanzine Efeméride em todas as livrarias especializadas em banda desenhada, assim como pedi-la directamente ao editor Geraldes Lino: geraldes.lino [at] gmail.com.

(Desenho da capa: Regina Pessoa.)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dois apontamentos


Regressado há pouco da Polónia, enquanto convidado especial do Festival Internacional de Banda Desenhada de Varsóvia: prometo publicar uma descrição mais pormenorizada do evento, mas, para já, fica este apontamento, comigo e com o também convidado especial Pedro Serpa, junto da nossa coutada na exposição. Obrigado ao Instituto Camões de Varsóvia, à embaixada portuguesa na Polónia e ao Instituto Cervantes de Varsóvia pelo convite e excelente acolhimento, assim como, em especial, a José Carlos Costa Dias e a Jakub Jankowski.


E amanhã, Sábado, às 16H30, estarei no auditório da APEL na Feira do Livro de Lisboa para o lançamento do meu novo livro Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência). A apresentação será feita pelo cineasta e escritor António de Macedo. É daqui a pouco, portanto: estão todos convidados, apareçam e passem a palavra.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Lançamento de "Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes"


Caros, o lançamento de Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes (Saída de Emergência) é já no próximo Sábado, dia 12, às 16H30, no auditório da APEL na Feira do Livro de Lisboa.
«Em Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes, David Soares convida a uma viagem surpreendente pelo lado negro da História, da Ciência, do Oculto e do Bestiário: quatro pilares de saberes secretos, como a Alquimia e a Cabala, mas também de criaturas como o grifo do Infante D. Pedro e as gárgulas das catedrais medievais, assim como experiências com cabeças decepadas, rituais de feitiçaria, pragas de dança e vampiros lisboetas. A profusão de temas, reflexões e desmistificações abrangidos será uma fonte inestimável de consulta para todos os leitores empenhados em saberem sempre mais sobre aquilo que os rodeia. Numa união erudita entre a enciclopédia e o livro de ensaio, Compêndio de Segredos Sombrios e Factos Arrepiantes é um livro repleto de histórias reais e factos espantosos que vos desvendarão um mundo negro, mas admirável.»
A apresentação será feita pelo escritor e cineasta António de Macedo. Passem a palavra e apareçam: estão todos convidados.

domingo, 6 de maio de 2012

sábado, 5 de maio de 2012

David Soares na Polónia #1


Para a semana, eu e o Pedro Serpa seremos os convidados portugueses no Festival Internacional de Banda Desenhada de Varsóvia, com o apoio do Instituto Camões e da embaixada portuguesa em Varsóvia. Além dos nossos trabalhos a título individual, apresentaremos O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books, 2011), um álbum que a Revista LER definiu como sendo «uma alegoria em torno da ignorância e da urgência do seu antídoto».


Em Outubro, também com o apoio do Instituto Camões e da embaixada portuguesa em Varsóvia, voltarei à Polónia como um dos convidados principais da oitava edição do Festival Internacional de Ficção Curta de Wroclaw, um dos mais interessantes e dinâmicos festivais literários europeus, onde irei participar em diversas sessões literárias sobre os meus romances (todos editados pela Saída de Emergência), em leituras realizadas em português com tradução simultânea em polaco e em conversas com os leitores.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A Invenção da Existência: o ponto de vista de um escritor sobre o Novo Acordo Ortográfico

Com o objectivo de legitimar o chamado Novo Acordo Ortográfico, a volubilidade da língua tem sido nomeada, até à exaustão, pelos pugnadores dessa modificação – nos quais eu não me inscrevo –, para justificar os transtornos que o supramencionado acordo intenta implementar. A partir daqui, em vez de discutir esses desméritos, prefiro desviar a crónica para outro caminho e chamar a atenção para a ideia que tem sido difundida enquanto suplemento de todo o debate: a de que a língua muda de modo orgânico, consoante o seu emprego no dia-a-dia. É errado: o que muda é a oralidade – a maneira como a língua é exposta diariamente, sempre com atalhos, abreviações e conveniências de carácter prático que têm como fito facilitar a comunicação.
A repetição dos vocábulos através dos tempos cria sempre cópias imperfeitas; não no sentido de que são incorrecções, mas no de que, por vezes, se afastam largamente da matriz e até adquirem significados diferentes dos originais. (Um dos exemplos mais comuns da perda de sentido é o da expressão latina ad hoc, por exemplo, que significa para um fim específico e que acabou por revestir-se com a acepção adversa de desordem.) Quando é a língua, em si, a mudar, ela fá-lo pela mão de quem a labora: os escritores.
Todas as línguas são revitalizadas na página pelos seus autores. Existe, literalmente, uma língua inglesa anterior e posterior a Thomas Browne e John Milton; uma língua francesa anterior e posterior a Michel de Montaigne e François-René de Chateubriand; um português anterior e posterior a Luís de Camões e Aquilino Ribeiro. A língua não muda como se fosse um terreno desamparado, mas às mãos de jardineiros inteligentes que combinam as espécies para que frua algo notável.
A língua portuguesa é, em simplificação, uma corruptela popular do latim – um latim “labrego”, tal como o francês e o italiano: dialectos que, quando cotejados com o latim erudito, se chamavam “linguagens”. (O mais antigo documento escrito em “linguagem” portuguesa data de 1175 e é propriedade do acervo do Mosteiro de São Cristóvão da cidade de Rio Tinto, na freguesia de Gondomar, distrito do Porto: consiste numa “notícia” de fiadores que pertenceu a Paio Soares Romeu.) Ao ritmo do avanço da Idade Média, as linguagens europeias foram sendo sistematizadas pelos seus escritores: em maior espessura, pelos escolásticos que coordenaram as gramáticas. Até o latim erudito não foi excepção: existe um latim anterior e posterior a Marco Túlio Cícero, que, no século I a. C., dedicou os últimos anos de vida à construção de uma língua que se superiorizasse ao grego.
Na peugada de Cícero, os monges completaram um trabalho extraordinário de composição da língua latina, engendrando neologismos diversos e até reinventando o verbo “existir”, que no latim clássico significava apenas aparecer, criando ainda o conceito de entitas como sendo o da existencialidade. Sem as inovações destes escritores pioneiros, a interrogação da existência – aquilo que em alemão se designa por seinsfrage – não seria possível e nunca teríamos lido o Hamlet de Shakespeare e o Walden de Thoreau, nem os escritos de Kierkegaard e de Sartre, muito menos os de Heidegger e de Wittgenstein; os romances de Dostoiévski seriam livros muito diferentes – e nunca teria havido um Dom Quixote.
Todas as palavras retocadas e os neologismos burilados pelos escritores nos seus livros é que fabricam a língua: esta não se faz na rua, ao contrário do que anda a ser dito, mas nas escrivaninhas dos escritores.

(Crónica publicada originalmente no número 133 da Revista LOUD!, em Abril de 2012.)

Carta de António de Macedo ao Secretário de Estado da Cultura



Leitura urgente para quem repudia o Novo Acordo Ortográfico e verdadeiro serviço público - como é cada vez mais raro ver-se, infelizmente - contra a sua aceitação generalizada.

Recupero, ainda, um esclarecimento legal sobre o Novo Acordo Ortográfico, também da autoria de António de Macedo, que poderão ler ou reler nesta ligação.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Contra o "empreendedorismo"


Parece-me que a tónica que tem sido colocada nos tempos mais recentes sobre a palavra "empreendedorismo" é um pouco perigosa, porque não só cria expectativas falsas nos indivíduos como ainda os divide em dois grupos artificiais: o dos supostos criadores de empregos e o dos comedores inúteis. Ora, o "empreendedorismo" também pode ser inútil, pois, só por si, não encerra nenhuma qualidade em especial; e, na maioria das vezes, só existe enquanto faixa cosmética para mascarar a pura ganância e o oportunismo mais miserável.

Os discursos populistas de que cada um de nós precisa de ser mais "empreendedor", como se transformar-se num arremedo de Donald Trump e comprar coisas por um euro para vendê-las por dois fosse dever de cada um, revela um modelo mental que valoriza o humano pelo numerário: nos Estados Unidos, por exemplo, é costume perguntar-se às pessoas quanto elas "fazem" por ano e, a partir daí, nivelam-se relações interpessoais baseadas em posições mais ou menos hierárquicas.

Esta nova obsessão pelo "empreendedorismo" que assistimos faz-me lembrar a velha obsessão pelo corpo perfeito: todos querem ser mais bonitos, mais bronzeados, mais perfeitos - agora também todos querem ser mais empreendedores e mais ricos. Qualquer ideia saloia de formar-se uma pequena ou média empresa é vista como sendo um fabuloso escadote de progresso e todas as facilidades lhe são oferecidas, mesmo que a dita empresa seja uma inutilidade, tão inútil quanto, na visão dos "criadores de emprego", são os "comedores inúteis".

O descrédito do estado português no ensino e nas vias culturais, estas cada vez mais subordinadas ao peso asinino da cartilha mercantilista - que nunca pensa a longo prazo - é a verdadeira erosão da identidade e do espírito da população, que preencherá o vazio por eles deixado com as falsas luzes do tal "empreendedorismo", engodo açucarado de milhares de jovens licenciados sem perspectivas.

Não se trata da demonização bacoca do capitalismo, mas da recusa em que a sociedade, que não é nem nunca poderá ser uma empresa, possa ser governada como uma. É, sim, a recusa da formação de uma sociedade que "despede" os seus cidadãos, porque estes não se encaixam no padrão do "empreendedor", como se ser-se empresário seja moralmente superior.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Anthony Bourdain em Lisboa


Ai, Bourdain... Vieste de tão longe para jogar ao chinquilho, mesmo à frente da minha casa, meu malandreco?... (O clube Chinquilho Junqueirense Giestal fica mesmo em frente ao meu prédio.) Acho bem que cá tenhas vindo: foi pena o programa apresentar uma imagem de Lisboa, e de Portugal, um pouco desviada da realidade, no sentido em que dá a entender que nascemos com o Salazar às costas e só agora estamos a trilhar caminho próprio. Lisboa não nasceu com o Salazar, meu caro: aliás, Lisboa nasceu antes de Portugal e antes de Roma, mas isso é outra história. Mas ainda bem que gostaste de cá vir. Foi pena é não teres passado pelos pastéis de Belém, quando acabaste de chinquilhar: era só seguires em frente, pela Rua da Junqueira até Belém. Para a próxima, avisa que eu vou contigo e conto-te umas histórias de terror sobre Lisboa bem assustadoras. Tanto que nem um balde de ginjinha será suficiente para esquecê-las (talvez dois).

Bota abaixo!...