quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Trolhamento pessoano


Aos caros leitores que se interessam por Maçonaria e Fernando Pessoa deixo a informação que no próximo dia 13 de Dezembro, no Centro Comercial El Corte Inglês, em Lisboa, será apresentado, às 18H30, o manual «Trolhamento dos 33 Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite», numa nova edição que reproduz os comentários e as anotações que Fernando Pessoa fez no seu exemplar. A edição é da São Rozas, com organização e prefácio de Miguel Rozas. A apresentação será feita por Félix Lopes. Um documento histórico interessantíssimo.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A heroicidade da inteligência


A única austeridade a que eu reconheço probidade é a da intransigência da inteligência contra a barbárie. Contra ela, e contra a fatuidade e a estupidez, erga-se a máxima inflexibilidade - erga-se toda a severidade. 
Este quadro, intitulado The Thinker: Portrait of Louis N. Kenton (1900), pintado pelo extraordinário artista norte-americano Thomas Cowperthwait Eakins, representa na perfeição a severidade a que me refiro. É um quadro que evoca um enorme sentimento de heroísmo; uma força intelectual fortíssima, imune ao superficial e à leviandade. Um ícone para um tempo hostil ao pensamento.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O futuro de Portugal

Observem com atenção a seguinte sequência de imagens, que mostra uma mulher a ser agredida pelo corpo policial de intervenção durante a vaga de dispersão operada sobre os manifestantes que se reuniram na passada quarta-feira, dia 14, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, para protestarem contra o governo de coligação, liderado por Pedro Passos Coelho, (ainda) em vigência. Nesta ligação e nesta já escrevi sobre esta carga policial cobarde e degradante, que nos devia envergonhar a todos, por isso quem ainda não leu esses textos poderá fazê-lo quando desejar, mas, para já, peço que observem por uns instantes estas imagens.

  
Peço-vos que se concentrem na expressão da mulher caída no chão.
Não é um rosto anónimo.
Tem um nome: esta mulher chama-se Cecília Silveira.
A imagem e o nome circulam nas redes sociais. Cecília Silveira é «uma desempregada de longa duração, sem direito a qualquer apoio da Segurança social, e vive da caridade de amigos». Cecília «passa fome, nem rendimento de inserção recebe, não tem qualquer apoio a não ser dos amigos, muitas vezes de pessoas que têm muito pouco, mas que ainda conseguem dividir uma sopa, um pão, um abraço». No entanto, como se isso não fosse aviltante o suficiente, Cecília ainda foi injustamente agredida por um homem blindado, couraçado com capacete, viseira e cassetete, e, no mínimo, com o triplo da sua força física.
Agredida com violência enquanto protestava, legitimamente, como era seu direito, contra as agressões igualmente violentas perpetradas pelo governo liderado por Pedro Passos Coelho. Atirada ao chão, perigosamente perto dos molossos que, esticando as trelas agarradas por criaturas não menos selvagens, salivam de antecipação sanguissedenta; atirada ao chão, perigosamente perto das biqueiras de aço das botas dos agentes do corpo policial de intervenção. Examinem o rosto de Cecília.
É uma face fatigada.
As pregas na pele, cinzeladas pela carestia e pelo desespero diários, têm, em vida, a retesia de um rigor mortis. Os olhos, vítreos como os de uma boneca, não reflectem a luz e só o gesto tímido de um braço estendido, que tacteia por auxílio, lhes empresta um ponto de fuga que nos deixa vislumbrar vida.
Este é o rosto penoso de uma pessoa angustiada. Este é um rosto repleto de vergonha - profundamente humilhado. Um rosto confundido pela injustiça extrema de ser agredido quando já pouquíssimo havia para agredir.
Observem bem este rosto. O rosto de Cecília.
Este é o rosto que costumam ter as vítimas de crimes de guerra.
Este é o rosto que se vira contra a parede à entrada do carrasco na cela.
Este é um rosto totalmente deformado pelo desamparo.

Observem muito bem este rosto. Memorizem muito bem esta expressão.
Olhem para o rosto de Cecília.
E imaginem que é o rosto da vossa mãe.


Imaginem que é o rosto da vossa irmã. Ou da vossa filha.
Imaginem que é o vosso rosto - ali, atirado ao chão, entre os animais.
Interroguem-se: esta é a sociedade em que querem viver? Interroguem-se: querem que este governo continue a governar-nos? Um governo que classificou a carga policial retratada acima como: «impecável», «estóica», «adequada», «profissional», «notável», «serena», «firme», «cheia de profissionalismo», «inevitável».
Olhem para o rosto na fotografia acima: devem-lhe uma resposta para estas perguntas. Devem-lhe a vossa vergonha sobre a desprezível manobra de estratégia do medo, orquestrada com maquiavelismo, a que se assistiu na passada quarta-feira. Devem-lhe aquilo que o governo lhe tem negado: humanidade.
 
Este é o rosto da desumana ideologia neo-liberal, desenvolvida em meados dos anos setenta do século passado pela chamada "Escola de Chicago": grupo de economistas do departamento de economia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, do qual fez parte o "monetarista" Milton Friedman, o principal pugnador da doutrina económica neo-liberal que veio a ganhar uma preponderância cada vez maior na política ocidental, desde o início da década de oitenta do século passado.
Engendrada como teoria económica, cujo único objectivo é, evidentemente, maximizar os lucros independentemente dos meios (o famoso slogan «money matters» é um dos seus mais conhecidos cartões de visita), a ideologia neo-liberal defende o desmantelamento do papel do estado na fixação e autorização de preços, o desregulamento total da banca privada, a privatização total dos serviços públicos e a extinção do salário mínimo.
Entretecida com o mundo da política, a ideologia económica neo-liberal transforma-se numa devastadora ferramenta de engenharia social que extingue a classe média e cria, somente, dois tipos de classes: a dos muito ricos e a dos muito pobres.
Um governo neo-liberal é um governo plutocrático: ou seja, é um governo dos muito ricos para exclusivo benefício dos muito ricos. O neo-liberalismo cria uma espécie de nova nobreza, mas uma que frui das grandes fortunas e não das famílias ancestrais de outrora. É uma política nova para cristalizar um mundo novo: um mundo que, para os muito ricos, é um mundo de facilidades e felicidades, mas que, para os muito pobres, é um mundo de desespero vivido no limite da sobrevivência.
No vídeo abaixo poderão ver como um par de anos de aplicação de ideologias neo-liberais na Grécia já acabaram com a sua classe média. O que acabo de escrever é, reitero, totalmente factual: isto é a doutrina económica neo-liberal escalpelizada ao nível mais elementar.     



As pessoas que viram neste vídeo poderão ser vocês em Março de 2013.
Quando receberem o vosso vencimento do próximo Janeiro, truncado pelas lâminas do orçamento de estado para 2013 que o governo vai aprovar em definitivo no próximo dia 27 de Novembro, talvez comecem, de facto, a prestar atenção ao que se está a passar em Portugal: usando a crise financeira como Cavalo-de-Tróia, o governo de coligação liderado por Pedro Passos Coelho está a usar o bê-a-bá do neo-liberalismo para empobrecer compulsoriamente o país, desvalorizar todos os salários e reduzir o salário mínimo para extingui-lo, desqualificar os indivíduos e privatizar todos os serviços públicos (incluindo a RTP com o seu arquivo histórico, a Caixa Geral de Depósitos e, ainda, património cultural e histórico) para transformar Portugal numa nação de trabalhadores pobres, no limiar da sobrevivência, que sirva de incubadora de mão-de-obra barata para os sectores secundários estrangeiros que, aliciados pelos salários miseráveis aqui aplicados, abrirão fábricas e manufacturas diversas como se não houvesse amanhã.

E, com efeito, para nós, aqueles que desejariam viver em Portugal com dignidade, poderá não haver amanhã nenhum.
O rosto de Cecília - não duvidem - é o nosso rosto. E poderá ser rosto do futuro de Portugal.
Com cinismo, o governo pede-nos para sairmos das nossas "zonas de conforto": poderemos, juntos, mostrar-lhe que isso quer dizer algo bem diferente daquilo que ele está à espera. Não temos nada a perder, a não ser o nosso futuro.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Crítica argentina a «O Pequeno Deus Cego»


Excelente crítica a O Pequeno Deus Cego (Kingpin Books), escrito por mim e desenhado por Pedro Serpa no weblog do crítico argentino Fernando Ariel Garcia:

«Como en toda la obra de Soares, el mejor guionista de la historieta portuguesa contemporánea, O pequeno deus cego cuenta con las palabras justas.
En este caso, cortas como puñales. Ideales para abordar las paradojas que exhibe la Creación, las similitudes y diferencias que hacen de los contrarios una fuerza primaria capaz de retroalimentarse y definirse por comparación. Como un mago, Soares navega entre la vida y la muerte, entre el sueño y la conciencia, entre la palabra y la imagen, entre la alegría y el sufrimiento.»


Raposices


Caros leitores, ontem descobri esta fofura de aldraba que não aldraba ninguém: é uma Raposa. Ora, a Raposa, por razões misteriosas que nem os mais doutos discernem, é o meu tóteme. Se algum dos caríssimos souber onde posso encontrar uma relíquia igual ou similar, por favor, envie-me essa informação por email para o endereço de contacto que está no canto superior direito do ecrã. Agradeço, em avanço, a vossa perspicácia e boa vontade. Abraços negros.


domingo, 18 de novembro de 2012

A Falácia da Força: ou, O "Respeitinho"


Partindo dos louvores que o governo tem difundido nos diversos órgãos de comunicação social sobre a degradante carga policial de dissipação, operada na passada quarta-feira, dia 14 de Novembro, pelo corpo de intervenção sobre os manifestantes reunidos em protesto diante da escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, credibilizou-se com cunho oficial nas mentes de ouvintes e espectadores que não só se deve repudiar totalmente toda a espécie de violência como ainda se levantou o fantasma de que protestos fortes não são a "maneira portuguesa" de encostar à parede um governo injusto e profundamente desumano que está, neste preciso momento - contando com a política de terra-queimada consagrada no orçamento de estado para 2013; sobretudo, nas medidas adicionais já anunciadas, que serão implementadas em Março desse ano -, prestes a exanguinar as últimas gotas de lucro que ainda pode espremer-se dos vencimentos mensais de milhões de famílias cada vez mais falidas e cada vez mais desesperadas.

É falso que exista uma "maneira portuguesa" de protestar.
Assim como é igualmente falso que exista uma "maneira grega" de protestar, ou uma "maneira espanhola" ou uma "maneira alemã" ou "francesa": existe o protesto, ponto.
Esta espécie de generalizações populares, estribadas naquilo que é suposto ser os espíritos ou as qualidades distintivas de sociedades e de etnias, são falsidades tremendas que já foram desacreditadas há muito pelas investigações rigorosas das ciências e das humanidades e que só subsistem atavicamente nas psiques dos políticos e de outras figuras de autoridade para, com maior facilidade, rotular-se e conduzir-se de modo mais lucrativo as vidas dos indivíduos e os destinos das populações.
O acto de protestar é, por natureza, intrinsecamente violento - atentando às circunstâncias e objectivos de um protesto, em especial, ele pode realizar-se com menor ou maior grau de violência, mas se não for violento - se não for forte - não é protesto nenhum.
Sobre violência, ela pode exercer-se em vários estados: verbalmente, fisicamente e psicologicamente. Por conseguinte, que não haja ilusões: este governo de coligação (coligação que não foi sufragada popularmente, logo ninguém votou neste governo), liderado por Pedro Passos Coelho, é extraordinariamente violento, até extremista, e não vacila em pressionar os indivíduos com as políticas mais devastadoras - indo muitíssimo além dos objectivos traçados em memorandos sob a supervisão da Troika -, quase sempre demonstrando um cinismo irónico e atroz por todos os que não se encaixam a longo prazo (excepto no papel de "comedores inúteis") no desígnio maior da ideologia neo-liberal que lhe serve de bússola, como, à vista do que infelizmente aconteceu na semana passada, não vacila em utilizar as violências físicas e psicológicas mais bárbaras para, através da instituição da estratégia do medo, inibir futuros protestos e manifestações daqueles de quem ele não deseja outra coisa senão a submissão e o quietismo.
Se também pode definir-se a violência como sendo um acto de destruição, como categorizar, senão de violência, uma política de austeridade que almeja a terraplanagem social, através dessas violações que são o empobrecimento forçado e a desvalorização dos indivíduos, de forma a, entre aspas, "começar do zero" um novo tipo de sociedade; muito mais ajustado a sinistros interesses financeiros e classistas que, neste momento, estão em conflito total com as noções mais elementares de estado-social e igualdade de oportunidades para todos? Urge recusar, protestar e resistir.  

Olhando para a história portuguesa do último século, e permanecendo nessa amostra para evitar uma maior distância entre a nossa contemporaneidade e o passado que desvirtue a aplicação do seguinte juízo, é facilíssimo perceber que essa tal "maneira portuguesa" de protestar - pacífica, serôdia, amorosa, até!, feita, entre outras coisas, de abraços mediáticos a agentes da polícia - nunca existiu.
No final do século XIX e durante a nossa Primeira República, na infância do século XX, a força e a violência, por vezes sanguinolentos, marcou decisivamente os protestos do povo contra as injustiças perpetradas pelas figuras de autoridade em vigência. E, pasme-se!, até os políticos usavam métodos violentos uns contra os outros: andaram deputados aos tiros dentro do parlamento - no mesmo edifício em cuja vizinhança, na passada quarta-feira, o corpo policial de intervenção agrediu com brutalidade os cidadãos com golpes de cassetetes, investidas de cães treinados e disparos de balas de borracha. Aquilo que importa esclarecer, nesta altura, é que os portugueses - civis e militares - nunca foram de "brandos costumes", nem "serenos": pelo contrário, sempre protestaram, sempre se revoltaram, com força, contra todas as injustiças. Fizeram-no no século XII, fizeram-no no XIV, no XVII, no XVIII, no XIX e no XX - em suma, fizeram-no sempre que foi preciso fazê-lo.
Compreenda-se que a falsificação do sereno temperamento português foi fabricada com apuro no decurso das décadas em que perdurou a ditadura para-fascista do Estado Novo, liderada por António de Oliveira Salazar: foi fácil instalar a fantasia de um português-tipo - manso, servil, pobre e bem-agradecido -, porque, em primeiro lugar, essa fórmula foi injectada num momento de enorme desgaste social e aproveitou-se do cansaço da população; em seguida, beneficiou, e muitíssimo, da elevada taxa de analfabetismo que sempre colocou o povo português em desproporcional desvantagem diante das suas elites - elas próprias também pouco instruídas, para começar, mas nem por isso menos cobiçosas de poder. Hoje, o povo é mais instruído, mais complexo na sua vida interior, do que há cerca de setenta ou oitenta anos, mas, então, como é possível manter presa por arames a farsa da mansidão portuguesa e difundir pelos órgãos de comunicação social a ideia - que está a ser aceite, sem questionamento, por todo o lado e por todos - de que a "maneira portuguesa" de protestar, "a forma portuguesa de manifestar" não se faz de força? (Como se as "boas" formas de protestar, as "aprovadas" formas de protestar, pudessem ser "ensinadas" ao povo por cartilha.) É possível manter-se a ideia do "povo sereno" e da "maneira portuguesa" de protestar, graças à velha ideia, também salazarista, de que "o respeitinho é muito bonito". O "respeitinho" pela autoridade.

Ainda persiste, em nós, a herança desse "respeitnho" de que pouco se ouve falar hoje em dia (os mais novos podem perguntar aos mais velhos o que é isso do "respeitinho"), mas que era língua corrente há alguns anos e, no limite, nunca deixou de estar presente nos nossos hábitos: e presente - sempre - em diminutivo, porque consiste no "respeito" devido pelos homens "pequeninos" aos homens "grandes".
Não é um verdadeiro respeito, com o significado de apreço ou apreciação profunda, nutrida por alguém que mereça, mas um sentimento de inferioridade relacionado com a submissão e o medo.
É o "respeitinho" medroso e submisso - boçal, certas vezes - que nos faz duvidar até da legitimidade do acto de protestar. Porquê?
Porque é um "respeitinho" criado em exclusivo para nós - povo - o devernos aos Senhores Doutores que "mandam em nós" e que, com o peso desse sacrifício enorme que é o saber-mandar, esperam que nós lhes obedeçamos - cegamente e sem "fazer ondas". Principalmente, se formos "fazer ondas" para mudar políticas injustas que nos irão empurrar com veemência para o retrocesso histórico, para o desespero do empobrecimento e para a desesperança mais cruel. No fundo, este governo sabe bem que aquilo que está a erguer só poderá ser construído se contar com a nossa apatia generalizada, com a nossa complacência; e foi a pensar em fortalecê-las que se encenou, com maior ou menor espontaneidade, com menor ou maior maquiavelismo, o aviltante espectáculo a que se assistiu na passada quarta-feira.
 
Eu (já o escrevi) sinto repugnância pelo que aconteceu e tenho vergonha por aqueles que acham que a carga dissipadora, operada pelo corpo de intervenção sobre os cidadãos, foi adequada.
Como é que pode cair-se no contra-senso de repudiar a violência dos protestantes contra a polícia de choque e, em simultâneo, desculpabilizar - até acolher com entusiasmo e achar perfeitamente normal - a violência da polícia de choque contra os manifestantes?
Pode cair-se - e cai-se - nesse contra-senso - o de achar que há uma violência "má" e uma violência "boa" -, porque a primeira encaixa-se no tal "respeitinho" que é devido pelo povo à autoridade, enquanto que a segunda não passará do castigo que a autoridade tem de dar ao povo pela falta do "respeitinho". No fundo, quando se acha que a agressão policial indiscriminada é legal, legítima, desejável, que é mesmo aquilo que faz falta, está-se a achar que o "respeitinho é muito bonito". Esta mentalidade reaccionária - que, com desagrado, é mais frequente do que eu pensava - consiste no melhor instrumento que o autoritarismo tem para controlar-nos como lhe é mais conveniente.

Para efeito de controlo, instrumentalizou-se o corpo policial de intervenção, unidade também chamada polícia antimotim (antiprotestos, entenda-se), que, fazendo aquilo para que foi adestrado, criou de imediato uma barreira de violência indiscriminada, ferindo velhos e mulheres num exercício completamente "pinamaniqueano" da aplicação mais rasteira da "lei do mais forte" e detendo cerca de uma centena de indivíduos aleatórios ao longo das ruas de Lisboa - a maior parte sem relação nenhuma com a manifestação de protesto dissipada pela carga policial - para levá-los, sem direito a advogado, sequer, para calabouços isolados, como o desactivado tribunal de Monsanto, nos quais, sem interrupções, submeteu-os à experiência do medo, mantendo-os na incomunicabilidade e coagindo-os a assinar autos em branco - uma operação muito grave e, em última análise, completamente anticonstitucional, mas que fechou com chave de ouro a demonstração de força que se pretendia marionetar.
Sob a ideia do "respeitinho" que se deve às fontes de autoridade - não interessa que sejam espúrias: basta que ocupem a posição certa no palco e tenham a aparência acertada -, elas podem cometer, com desregramento, os piores excessos sem perder o refulgente nimbo de legitimidade que ofusca aqueles que acham dever-lhes muito "respeitinho".

Mas, por outro lado, quando as fontes de autoridade precisam da couraça impenetrável de um corpo de intervenção - impenetrável que nem a carapaça de um caranguejo - para governarem pela força bruta estão, bem vistas as coisas, a dar-nos a entender que são como o miolo de um caranguejo: uma matéria mole, invertebrada, somente sustentada por uma finíssima rede quasi-invisível, que, sem a protecção do estupendo exoesqueleto, se desfaz com um sopro. O exterior é duríssimo - blindado, capaz de resistir estoicamente a chuvas de pedradas, elevando as pinças afiadas contra opositores e espectadores ao mesmo tempo numa cega sangria  -, mas o seu interior é liquefeito, frágil.
Com sorte, é também moribundo.

 

sábado, 17 de novembro de 2012

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

O estômago e o espelho


Desta quarta-feira para cá tem-se escrito e dito que a gratuita e degradante carga policial que o corpo de intervenção operou nesse final de tarde sobre os manifestantes que se reuniam em protesto contra o governo iníquo liderado por Pedro Passos Coelho, à frente da escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento, foi uma manobra necessária diante do desrespeito que lhes foi mostrado sob a forma de uma ininterrupta chuva de pedras de calçada, atiradas por «profissionais da desordem e da provocação». Sim, de facto, se «profissionais» existiram nesses instantes foram apenas os da «desordem», porque os supostos "profissionais" da "ordem" mantiveram-se mansos e impávidos debaixo dos calhaus quando podiam, perfeitamente, ter agarrado sem grande alarido os desordeiros somente esticando um braço, tal era, em certos momentos, a proximidade entre uns e outros. Como toda a gente viu, mas nem toda a gente compreendeu, o corpo de intervenção, em vez de fazer o seu trabalho, como seria esperado, investiu irascível sobre os cidadãos, numa violenta manobra de dissipação a golpes de cassetetes, atingindo, aleatoriamente, todo o tipo de indivíduos, fossem novos, velhos, homens ou mulheres - alguns com crianças ao colo. O único objectivo desta manobra, mais encenada do que outra coisa, foi meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem novamente. Ou seja: o corpo de intervenção, inversamente ao que têm vindo a declarar os seus defensores, não fez o seu trabalho convenientemente.

Digo «convenientemente», porque, até certa altura, o corpo de intervenção fez parte do seu trabalho - que foi ser agredido.
O trabalho de qualquer corpo de intervenção, como se pode deduzir - e bem - pela blindagem que normalmente anquilosa os seus agentes, apetrechados de escudos, cassetetes e molossos, é fazer de filtro e aguentar as investidas mais brutais e mirabolantes que lhe possam ser dirigidas: dando-lhe pontapés ou atirando-lhe pedras da calçada. Nesse sentido, quem diz que os agentes do corpo de intervenção só estiveram a fazer o seu trabalho estão cobertos de razão: levar porrada da grossa é mesmo o trabalho deles. Se não fosse, não teriam necessidade de ir para a rua protegidos com coriáceas carapaças e armados com cassetetes e cães. Cada ofício tem o seu fato de trabalho e ferramentas especializadas: e o ofício deles é ser agredidos, aguentarem e agredirem. No mínimo, agredirem os seus agressores - coisa que esteve muito longe de acontecer na vil e vergonhosa manobra de dissipação em que espancaram os espectadores. Resta descobrir se o objectivo da carga - semear nas pessoas o medo de manifestar desagrado pelo governo, de desafiar o governo - foi alcançado.

A propósito, expresso o meu espanto diante da atitude de vassalagem que o público, um pouco por todo o lado, está a demonstrar, defendendo o indefensável com o argumento de que o corpo de intervenção estava apenas a fazer o seu trabalho. O que escrevi acima desmonta, creio, o sofisma dessa má dedução, mas ainda acrescento que se é verdade que existem trabalhos melhores e trabalhos piores também existem pessoas que estão melhor e pior preparadas para fazê-los. E agredir, com pancadas de cassetete e dentadas de cães treinados, velhos e mulheres desprotegidos não é, de certeza, um trabalho que a maioria dos indivíduos tenha estômago para fazer. Tal como em todos os ofícios, é preciso ter queda, ter aptidão - talvez até ter gosto.

Agostinho de Hipona encontrou uma engenhosa fórmula para desculpabilizar os soldados que matavam a torto e a direito nas guerras para as quais eram enviados pelos seus senhores: seguiam ordens e, como seguiam ordens, não tinham culpa. Ou seja: "estavam só a trabalhar".
No final do terceiro decénio do século passado, quando os esbirros das einsatzgruppen nazis disparavam tiros nas nucas de mulheres e crianças ajoelhadas à beira de valas comuns, já repletas com os corpos dos seus familiares assassinados nas vezadas anteriores, também "estavam só a trabalhar". Sob a legitimidade de um trabalho, de uma ordem ou de um sufrágio já se fizeram e continuarão a ser feitas as piores atrocidades possíveis.
Quando um carrasco, seja de que regime ou orientação política for, tortura outra pessoa para os mais abjectos fins, também "está só a trabalhar".

Sinto repugnância por este episódio miserável que aconteceu na passada quarta-feira e sinto vergonha pelos meus colegas, conhecidos e amigos que acham que tudo isto é desculpável, inevitável - normal. A passada quarta-feira foi, para a nossa sociedade portuguesa, um momento de não-retorno absoluto, a partir do qual será cristalizado o rumo que ela tomará. Daqui a umas semanas, no máximo um mês ou dois, passada a onda de choque provocada, a conjuntura ou muda ou piora. Estamos a fazer dezassete meses de governo liderado por Pedro Passos Coelho. Desejamos mais dois anos e meio disto? Estaremos, assim, tão acomodados à ideia de deixá-los "trabalhar"?

Termino com umas palavras que o escritor Edward Carpenter, fabuloso campeão da liberdade e dos direitos humanos, escreveu no seu longo poema em prosa «Towards Democracy» (1833):

«Could you be happy receiving favors from one of the most despised of these?
Could you be yourself one of the lost?
Arise then, and become a saviour.»

Ou seja: pode-se trabalhar a favor da injustiça ou pode-se trabalhar contra ela. Tudo depende do estômago de cada um e daquilo que cada um está disposto a aceitar quando se olha ao espelho.

O sangue e o povo


«A força é ainda a última ratio dos povos.»
Frase de António José de Almeida (foto acima), primeiro presidente da república português a cumprir um mandato inteiro e o primeiro, num período de grande crispação social, a reunir um enorme consenso popular. António José de Almeida, figura maior da política portuguesa - e autor da importante frase supracitada -, foi um político de direita e até fundador do Partido Evolucionista: partido que ocupou no seu tempo um espaço no espectro político que equivale àquele que, hoje, é ocupado (ou deveria ser ocupado) pelo PSD de Pedro Passos Coelho. Quem tiver dois dedos de testa que entenda as diferenças e retire as suas próprias conclusões.


(Cidadãos de Lisboa dissipados com violência a golpes de cassetetes pelo corpo policial de intervenção, na noite de 14 de Novembro de 2012, em frente à escadaria do Palácio de São Bento, sede do parlamento. Uma operação infame que, embora laudada pelo governo na comunicação social, nos deveria envergonhar e indignar a todos. Desde o Dia 1 que tenho escrito e esclarecido aqui nos Cadernos de Daath sobre o caminho negro que este governo iníquo nos está a desconduzir e eis que, na passada quarta-feira, esse executivo nos deu a todos um espectáculo degradante e gratuito somente com o objectivo de pressionar o povo e demonstrar-lhe pela força que é inútil manifestar-se contra a engenharia social neo-liberal que, disfarçada de funambulismo financeiro, nos está a ser empurrada pelas gargantas abaixo. Nunca precisámos tanto de coragem e verticalidade como agora.)


(Noite de 14 de Novembro de 2012: ruas de Lisboa revestidas com o tapete vermelho do governo liderado por Pedro Passos Coelho, cortesia das forças policiais que carregaram com cegueira irascível sobre os cidadãos em frente ao Palácio de São Bento numa operação de dissipação pela violência que teve como verdadeiro e único objectivo meter medo às pessoas para inibi-las de se manifestarem no futuro. O medo não pode instalar-se nas mentes, porque no momento em que ele o faz nunca mais as abandonará: ruas sem medo!)

Malleus Maleficarum 2012


É quase um truísmo, o de que quando uma notícia adjectiva mais do aquilo que informa não é notícia nenhuma: é propaganda.
Quão conveniente o uso do adjectivo "radicais" para rotular de "indesejáveis" aqueles que não se encaixam num perfil oficial e autorizado. Hoje, "radicais" são os chamados de «profissionais da desordem e da provocação»; amanhã poderão ser vocês, que têm um weblog no qual manifestaram uma opinião pouco simpática para com as políticas catastróficas deste executivo, infelizmente ainda em vigência, que nos mantém adstringidos à abjecção. A história demonstra muitíssimo bem o modo regular como os autoritarismos estreitam o espectro dos "radicais" que é proveitoso receptar, à medida que os indivíduos considerados mais incómodos vão sendo silenciados em primeiro lugar: no limite, ninguém está a salvo de vir a ser considerado "radical".

A propósito, na alínea h) do Artigo 27º (Direito à liberdade e à segurança) do projecto de revisão constitucional criado em 2010 por um dos partidos que forma o actual governo de coligação está contemplado o direito da «privação da liberdade» pelo «internamento de portador de anomalia psíquica ou de grave doença contagiosa em estabelecimento terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente».
No artigo seguinte, o Artigo 28º (Prisão preventiva, internamento provisório e obrigação de permanência na habitação), pode, ainda, ler-se o seguinte: «2. A prisão preventiva, o internamento provisório e a obrigação de permanência na habitação têm natureza excepcional, não sendo decretados nem mantidos sempre que possa ser aplicada caução ou outra medida mais favorável prevista na lei. 3. A decisão judicial que ordene ou mantenha uma medida de privação da liberdade deve ser logo comunicada a parente ou pessoa da confiança do detido, por este indicados. 4. A prisão preventiva, o internamento provisório e a obrigação de permanência na habitação estão sujeitos aos prazos estabelecidos na lei.»

Parece uma leitura simples, de facto, mas, como qualquer outra peça escrita em "burocratês", é útil reflectir sobre ela com um pouco mais de atenção. Pode meditar-se sobre o que consistirá, ao fim e ao cabo, um «internamento provisório», que é uma designação algo vaga, eufemística, mas, para descer da abstracção a um plano mais terreno, vale a pena recordar, por exemplo, aquilo que aconteceu nesta quarta-feira, depois da carga policial sobre os cidadãos reunidos em manifestação de protesto contra o governo, diante da escadaria do Palácio de São Bento, para especular sobre certos casos prováveis em que seja preciso que «uma medida de privação da liberdade deve ser logo comunicada a parente ou pessoa da confiança do detido, por este indicados».



Em última análise, o que importa reter é que, de maneira geral - nos autoritarismos, em principal -, no momento em que se erguem cassetetes, também se costumam erguer os adjectivos - sejam os de «radicais» ou de «portadores de anomalia psíquica».

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Safanões a tempo



No segundo discurso da sua vitória eleitoral, na noite de eleições legislativas de 6 de Junho de 2011, Pedro Passos Coelho afirmou que «os jovens têm hoje mais razões para terem esperança em Portugal», antes de cantarolar o hino nacional - pela segunda vez nessa noite e num intervalo de tempo inferior a sessenta minutos. (No vídeo acima, pode ver-se esse momento aos 07:40.)
Pese a sua promessa - e patriotismo tonitruante -, dezassete meses depois, mais de sessenta e cinco mil jovens portugueses emigraram, porque o país por ele governado não lhes deu nenhumas razões para terem esperança. Dezassete meses depois de Passos Coelho ter sido eleito, e formado com outro partido um governo de coligação que não foi a votos - no fundo, ninguém votou no governo em vigência -, Portugal é um país muitíssimo mais pobre, confuso e quasi-destroçado pela ideologia neo-liberal de engenharia social que obstina em contrair com violência a nossa economia, em baixar brutalmente os salários, em desvalorizar os indivíduos e, em oposição à supracitada promessa eleitoral, roubar-lhes a esperança.

Sem ela e sem um espaço público no qual possam exercer uma autêntica intervenção cívica para comunicarem os seus problemas - ausência atávica que tolhe todos os movimentos úteis -, os indivíduos em impotência manifestam-se da única forma que lhes é possível e lhes está ao exíguo alcance: na rua, com cartazes artesanais de protesto - e, cada vez mais, motivados contra o horizonte da injustiça sem estarem orientados por bitolas partidárias. Ou seja, o governo liderado por Passos Coelho é, ainda, único na união que cumpre entre os eleitorados de direita e de esquerda, fundindo-os numa força que, progressivamente, lhe é hostil.
O grau dessa hostilidade tem vindo a aumentar em proporção à surdez e ao mutismo governamentais, que insistem em continuar a política de terra-queimada contra o país, não obstante as opiniões especializadas que diariamente declaram na comunicação social a inutilidade das medidas em aplicação e daquelas que estão planeadas: não só as que compõem o orçamento de estado para 2013, como as adicionais que irão ser instituídas a partir de Março desse ano e que consagram, entre outras estratégias, a dilatação da base tributável para efeitos de cálculo de IRS - como se o sufocante aumento das taxas de IRS contempladas no orçamento de estado para 2013, através das mudanças nos seus escalões, não fossem suficientemente destrutivas para as famílias portuguesas.

Ontem, Miguel Macedo, actual ministro da Administração Interna, desvendou na comunicação social que andaram «profissionais da desordem e da provocação» a gorar com violência as manifestações pacíficas que se realizaram pelas ruas e à frente do Palácio de São Bento no dia da Greve Geral, que também foi greve geral europeia. Se existem, de facto, "profissionais da desordem" são os ministros deste governo desumano, liderado por Pedro Passos Coelho, que, todos os dias, fazem da «desordem e da provocação» - e da violência -, sobre todos nós (inclusive sobre quem os defende), a sua profissão, o seu motivo de orgulho.
A coagida contracção da nossa economia, a desvalorização dos indivíduos e dos seus salários, os suicídios na Ponte 25 de Abril, nas linhas ferroviárias e de Metro de quem é arrebanhado pelo desespero criado por estas políticas homicidas - isso, sim!, é que é verdadeira desordem, isso é que é verdadeira provocação, isso é que é verdadeira violência.
Que categorizem, pois, dessa maneira, de «desordem e provocação», os protestos dos homens comuns a quem roubaram toda a esperança, porque é sinal que estão incomodados com esses protestos: e sem força não há protesto. Já dizia Brecht que chamavam violento ao rio, mas não se lembravam de chamar violentas às margens que o comprimiam. No vídeo abaixo, aos 00:46, pode ver-se o rompimento dessas margens, numa cerúela e perfulgente fragmentação que ocorre no lado direito da imagem, por trás do aparato policial. Não é possível, neste vídeo, ouvir nenhum aviso prévio do avanço da carga policial que se segue e que investiu com típica irascibilidade, desferindo golpes aleatórios de cassetete sobre cidadãos idosos e mulheres. 




Todavia, desde essa tarde que a polícia foi detendo por Lisboa um número indeterminado de indivíduos (ao que consta, várias dezenas ou até mesmo uma centena) e os manteve cativos até ao início desta madrugada em diversas esquadras e equipamentos análogos, como o desactivado tribunal de Monsanto - cujo acesso por transportes públicos e civis está, normalmente, bloqueado, tornando-se um local optimal para o efeito em questão. Detidos sem justificação - alguns sem sequer terem participado em qualquer manifestação -, impossibilitados de contactarem com a família ou com advogados, os indivíduos foram, paulatinamente, libertados depois de serem coagidos a assinar documentos em branco. Abaixo, podem ver um dos poucos vídeos que noticiam esta situação preocupante pelo seu absurdo e impunidade.



Dezassete meses depois de ter sido eleito Passos Coelho, este é o país que ele está a construir, com a feral erosão do edifício democrático e a instalação da cultura do medo - a cultura dos "safanões a tempo". O poeta Camões já se interrogara no seu funesto soneto, escrito no século XVI, sobre o engano de se tentar ser ledo (leia-se feliz) quando, afinal, se vivia com medo. No nosso caso, medo de senhores como este:



(Dá que pensar.) Dançamos uma trágico-patética danse macabre, musicada com desafino pelo governo de Passos Coelho; e quem acredita estar fora do alcance do caixão é melhor "tirar-se daí que já foi dada Abrantes", porque à medida que a classe média for desaparecendo aqueles que pensam estar hoje a salvo serão os próximos a empobrecer. É que na visão neo-liberal só existem dois tipos de classes: a muito rica e a outra.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

No 23º Amadora BD...


...numa sessão de autógrafos, com alguns dos meus livros (O Pequeno Deus Cego, É de Noite Que Faço as Perguntas e Mucha: todos nomeados, nos últimos três anos, para os três principais Prémios Nacionais de Banda Desenhada - Melhor Álbum, Melhor Argumento e Melhor Desenho; sendo que, este ano, O Pequeno Deus Cego deu-me o prémio de Melhor Argumento). Também pode ver-se Os Anormais: Necropsia De Um Cosmos Olisiponense, o meu mais recente disco de spoken word, com música de Charles Sangnoir.

(Foto de Álvaro Santos.)

Onde está a esperança?, pergunta-se


Há poucos minutos, na RTP1, no programa Prós e Contras desta semana, cujo tema era «Onde Está a Esperança?», João Machado, presidente da Confederação de Agricultores de Portugal, regozijou-se com o facto de muitos arquitectos, professores e outras gentes com formações académicas estarem, neste momento, a tornarem-se agricultores - até agricultores que, segundo as suas palavras, conseguem ser melhores que os outros agricultores, porque possuem formação académica.

 Isto significará o quê?

Que um arquitecto é, no limite, mais qualificado, por exemplo, para cavar batatas que um agricultor "tradicional", porque a sua facilidade em pensar quadridimensionalmente lhe permite acertar com a enxada num ponto optimal e rentabilizar o crescimento de tubérculos por metro quadrado de terreno? Então, por conseguinte, isto não significará que andámos enganados - desde a alvorada do agriculto no Crescente Fértil - ao deixar o cultivo da terra nas mãos de indivíduos sem cursos superiores, porque este tipo de formação, apesar de não garantir empregos nas áreas respectivas de especialização, garante super-agricultores, muitíssimo tarimbados? Como se pode sentir alegria pela falta de oportunidades de trabalho que leva estes jovens licenciados a voltarem à terra dos pais, de onde saíram para irem estudar para Lisboa, Porto e Coimbra, e os obriga a virarem-se para a prática da agricultura como último recurso?

Além disso, Machado voltou-se para uma jovem estudante de arquitectura que estava na audiência, acabada de intervir no debate em curso, dizendo-lhe que, provavelmente, até daria uma óptima agricultora. Em suma: o governo pede aos universitários que emigrem - Machado, com maior sensibilidade filial à terra mátria, pede-lhes que fiquem para cavar batatas. Isto é grave e revelador de que quando um país está desgovernado, a impunidade diante da rusticidade é completa. O exemplo, percebe-se, vem de cima.

Quando acabará esta catástrofe que nos sufoca mais e mais, a cada dia que passa?
Quando nos veremos livres deste governo que, segundo anunciou Luís Bento no mesmo programa, prepara mais um pacote de medidas de austeridade para Março de 2013, que contempla, entre outras determinações, o aumento da base tributável para efeitos de cálculo de IRS.
Será possível espremer ainda mais dinheiro dos bolsos dos indivíduos? Quanto tempo se pode viver na miséria?
Quantas famílias se atirarão pelas janelas nessa altura?
Espero que se compreenda - e bem - que estamos a falar de novas medidas de austeridade planeadas neste momento para serem aplicadas depois do orçamento de estado para 2013 ser aprovado em definitivo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Entrevista com António de Macedo - 3ª Parte

Com a publicação da terceira parte da longa e pormenorizada entrevista que fiz ao cineasta e escritor António de Macedo cessa o intervalo um pouco mais prolongado do que o previsto desde a publicação da segunda parte da entrevista até este momento. Porém, creiam que valeu a pena esperar - até porque esta parte da conversa que mantive com Macedo adquire um cunho especialíssimo na conjuntura bem desgovernada que, presentemente, atravessamos: a coragem intelectual, artística e cívica de Macedo é uma lição.

Poderão ler (ou reler) as partes anteriores nesta ligação e aqui. Em breve, publicarei a quarta parte desta entrevista que, atrevo-me a dizer, já é um documento imprescindível para os numerosos admiradores da obra de António de Macedo. A ler, portanto, com muita concentração.


(continuação da 2ª parte)

David Soares – Diga-me, na sua óptica, como é ser-se um homem de cultura, sensível, inteligente, à frente do seu tempo, numa conjuntura espácio-temporal absolutamente sufocante e cheia de indivíduos que… olhe, que não percebem nada. Como é que se consegue lutar contra isto?

António de Macedo – Não se consegue, digo-lhe já, honestamente. Não se consegue. De qualquer maneira, a sensação que eu tenho, é a de que nasci no país errado, no planeta errado… no tempo errado, provavelmente… E não digo isto para me vangloriar, não é que eu seja melhor do que os outros: é uma questão de sensibilidade, de maneira de ser. Cada macaco no seu galho… e, se calhar, eu fiquei pendurado no galho errado. Não é que eu seja pior macaco ou melhor macaco do que os outros. Isso não me impede de ir fazendo, porque penso que há outras pessoas que estão numa situação semelhante. É isso que noto, através das reacções de contactos e amizades e tudo isso. O simples facto de estarmos aqui a conversar prova que estamos no mesmo galho, o que é porreiro. Embora possamos ter opiniões diferentes e até divergentes nisto ou naquilo, entendemo-nos porque temos um ideal que nos é comum, o elevado ideal que nos põe no mesmo galho! E não é assim um caso tão raro como isso, obviamente. Embora não seja frequente. Em dez milhões de portugueses, provavelmente, pessoas como nós serão poucas. Mas existem! Se calhar, só por causa dessas, vale a pena continuar a puxar a carroça. A carroça dos dez milhões… Vamos continuando a puxar a carroça, até porque não temos outra coisa a fazer. Isso é que é dramático. Estamos aqui, é aqui que temos de trabalhar, é aqui que temos de construir e que temos de criar a nossa própria realidade que é, no fundo, aquela realidade fantástica – ou não… A tal realidade dos interstícios entre as assimptotas… E se isso ajudar a melhorar, nem que seja um bocadinho, o planeta inteiro… por que não?... Já terá valido a pena termos nascido no sítio em que nascemos e na época em que nascemos. É a única consolação que eu tenho. Vamos continuando.

DS – O certo é que todas as épocas, enfim… Esta época tem, de facto, coisas muito hostis à inteligência e à sensibilidade, mas o certo é que todas as épocas são más. Não existiram épocas ideais.

AdM – Não existiram. Sempre houve gente a queixar-se.

DS – Mas parece que há épocas que vão mais ao encontro de certas ideias e de certas formas de fazer. Vivemos numa época um bocadinho hostil…Há pouco falávamos do som… Eu acho que, hoje em dia, vivemos numa época muito emocional…As pessoas valorizam muito a emoção, mas a emoção fácil…

AdM – Exactamente.

DS – …o sentimentalismo de pechisbeque… As pessoas valorizam muito isso e eu acho que é uma consequência de… Aviso que esta é uma ideia completamente heterodoxa… É uma consequência de, desde umas décadas para agora, vivermos numa sociedade que tem, lá está!, que tem música de fundo por todo o lado.

AdM – É verdade. Isso é verdade.

DS – O António sabe isto muito bem. Num filme, por exemplo, vemos uma cena dramática… Se for uma cena sem música, podemos sentir menor ou maior tristeza, mas se a cena tiver uma banda-sonora adequada ficamos derrotados.

AdM – É a experiência, que eu costumo dizer, de se ver um filme de terror sem som: não mete medo a ninguém.

DS – Hoje em dia, temos banda-sonora em todo o lado: nos elevadores, nos centros comerciais, nos autocarros… Isto condiciona as pessoas a não pensar – e a sentir.

AdM – Exactamente. E a não ver: também condiciona a não ver.

DS – E obras como a do António pedem pensamento. Pedem reflexão da parte de quem as vê…

AdM – E de quem as ouve.

DS – E de quem as ouve. Acho que, cada vez mais, vivemos numa época pouco propícia a que se façam este tipo de obras, que pedem pensamento. O cinema, hoje em dia, é uma coisa muito diferente, por exemplo.

AdM – É muito diferente. Até pelas tecnologias. Hoje em dia existem tecnologias que tomara eu que tivessem existido no meu tempo. Eu tinha ideias, recordo de ter tido ideias para fazer certas coisas nos meus filmes e que não consegui, porque não havia tecnologia e, hoje, quando vejo certas coisas que os programas de computador fazem, penso “se eu já tivesse isto no meu tempo, o que eu teria feito…” Quer dizer… Eram ideias que me vinham à cabeça, coisas mirabolantes, mas a que eu não podia dar concretização. O cinema hoje é muito diferente.

DS – Há cinema esotérico, hoje em dia?

AdM – É uma boa pergunta.

DS – Por exemplo, costuma-se dizer que o David Lynch faz uns filmes meio-esotéricos. Eu acho que não, mas…

AdM – No caso da ficção científica, quem era esotérico, verdadeiramente, era o Philip K. Dick, que era um gnóstico. Assumido. A gente lê o «VALIS» e outros livros dele… Por exemplo, «A Transmigração de Timothy Archer» é um romance profundamente esotérico e, de modo geral, todos os romances dele são altamente esotéricos. Quando nós vemos os filmes feitos a partir desses romances percebemos que as histórias perderam o esoterismo todo. Os filmes sobrevalorizam o aspecto espectacular. Por isso é que a herdeira dele proibiu, a partir de uma certa altura, que os livros fossem adaptados para cinema: porque não estavam a reproduzir o verdadeiro espírito da obra do Philip K. Dick, isto é extremamente interessante. Depois, há um cinema esotérico estranho, que é o caso do «The Matrix», que é altamente esotérico, também.

DS – Além de ser muitíssimo derivativo. É sincrético.

AdM – Pois.

DS – Vai buscar umas coisas aqui, outras ali… E plagia altamente outras obras de ficção que passaram mais abaixo do radar. Mas quando penso nos filmes do António… Acho que o António era o cineasta perfeito para adaptar ao cinema o romance «A Voyage to Arcturus» do David Lindsay. É um fabuloso romance gnóstico, esotérico, apesar de ser uma ficção científica. O crítico de literatura que escreveu o «The Western Canon», o Harold Bloom, tentou armar-se em romancista com uma sequela para esse romance, intitulada «The Flight to Lucifer: A Gnostic Novel». É uma sequela não-oficial de «A Voyage to Arcturus».

AdM – Não conhecia esse livro.

DS«A Voyage to Arcturus» consiste numa história em que duas personagens vão, obviamente, para a estrela Arcturus… Viajam numa espécie de multiverso gnóstico-cabalístico, é muito interessante. E é verdadeiramente esotérico, não usa o esoterismo como uma pátina.

AdM – Ora aí está! Como disse, não conheço esse livro, mas pelo que me diz, isso está certo e faz muito sentido. Por outro lado, em termos de esoterismo… Não é uma coisa muito bem vista. Ou é usado num sentido banal, ou seja, paranormal… até há por aí uma quantidade de filmes e séries de televisão paranormais que nunca mais acabam e que, às duas por três, acabam por ser vagamente esotéricos, mas pela rama, porque só roçam o esoterismo, não são esotéricos no núcleo… Aliás, o verdadeiro esoterismo é indissoluvelmente iniciático, tem de estar ligado à superação de provas e à correlativa iniciação nos Mistérios. Não conheço, assim, nenhum filme cem por cento esotérico. Com os romances é diferente, ainda há alguns… do século XIX e do século XX… Os livros do Thomas Mann têm muito esoterismo, o «Doutor Fausto», por exemplo. «O Eleito», também dele, é um romance altamente esotérico… Tal como, ou mais ainda, o romance «Zanoni», de Bulwer-Lytton, ou os romances cabalístico-iniciáticos de Gustav Meyrink. E até do Bulgakov, que era comunista, temos o «Margarida e o Mestre», a maneira como tudo está composto no livro, a corte diabólica transposta para a modernidade, com as palhaçadas modernas… São romances que de uma forma mais ou menos explícita, ou mais ou menos implícita, incluem sempre uma proposta iniciática… Há, de facto, um certo esoterismo, talvez disfarçado, que anda por aí em algumas obras, mas, curiosamente, ele não é assumido e a crítica literária quando se refere a essas obras não refere o seu lado esotérico, refere outros. O lado fantástico, eventualmente, e o lado… Como é que eu hei-de dizer?... Levam essas fantasias como se fossem críticas a realidades que não estão bem.

DS – É a velha história de que o fantástico só é válido enquanto alegoria de situações sociais.

AdM – Para desmontar coisas que não estão bem e que, então, se levam para o lado do fantástico, de maneira a gozar com elas, para demonstrar que são um disparate. Agora, uma coisa esotérica pelo esoterismo… Ou se cai numas chachadas, como em alguns romances portugueses… Uma pessoa até começa a chorar, porque são de uma esoterice tão imediatista que acabam por ser só pirosos. Não são livros subtis. Quando a editora Hugin funcionava, por exemplo… eu era muito amigo deles… pediram-me para apresentar um romance esotérico de uma autora portuguesa. Fui ler o romance e ia morrendo de susto: era altamente esotérico, mas de um esoterismo bê-á-bá!… Parecia uma novelização daqueles manuais de ocultismo-de-quiosque que se vendem por aí a granel. Era muito mau. E eu pensei: “ninguém vai engolir isto, é uma vergonha completa…” Eu já não podia dizer não e tinha de apresentar o livro. Ora, como é que eu descalcei esta bota? Geralmente, quando se apresenta um livro de que a gente gosta, diz-se que o livro é bom, explica-se porquê e citam-se excertos. Quando a gente não gosta… Aliás, felizmente, foi a única vez que me aconteceu não gostar de um livro que apresentei… Então, como é que fiz? Do que é que eu me lembrei? O tema que a autora abordava era um tema esotérico e por acaso, como tema, até era interessante: então, comecei a falar sobre esse tema e sobre autores que já o tinham abordado e nunca referi o livro dela. Fiz a apresentação toda sem falar no livro apresentado, somente à volta do tema que a autora escolheu e sobre autores, este e aquele, que mais ou menos tinham falado do mesmo tema. Mas romances esotéricos não há muitos. Há é ensaios. Sobre o quinto-império, por exemplo. O Fernando Pessoa também andou nessas áreas e tem uma série de lucubrações sobre isso, algumas muito interessantes, mas quando se entra pela ficção, propriamente dita, seja na literatura ou no cinema… Cinema português esotérico, não conheço nenhum. Fantástico, sim, há umas coisas, não muitas, mas esotéricas, que me lembre, não conheço nenhumas. E mesmo no estrangeiro, no cinema estrangeiro, não me lembro de nada verdadeiramente esotérico, no sentido iniciático do termo, tirando, talvez, como disse, «The Matrix», apesar das reservas, bem observadas, que o David levantou, e, curiosamente, toda a proposta estrutural da série de filmes «Star Wars»…. Mas o facto de eu não me lembrar de outros não quer dizer nada, porque não conheço tudo. Se calhar até há muitas coisas interessantes. Como, aliás, agora o David me apresentou o autor da «A Voyage to Arcturus», que eu não conhecia. É um exemplo.

DS – Quando o António chegou à altura funesta de não conseguir filmar, pode dizer-se que continuou a explorar os seus temas na escrita ou ela já o acompanhava?

AdM – Já acompanhava.

DS – Mas, de certa forma, o que é que o António encontra na escrita que não encontra no cinema? Ou as mesmas linguagens conseguem servir o mesmo propósito? Conseguem transmitir a mesma mensagem?

AdM – Não. São veículos diferentes. Eu comecei pela escrita, como costumo dizer, quando tinha oito anos, nove anos de idade. Escrevia histórias aos quadradinhos. Portanto, a imagem e a escrita acompanhavam-se. Mais tarde, quando comecei a fazer cinema, a escrita acompanhou-me sempre. Eu sempre escrevi os meus próprios guiões. Nunca fiz um filme com um guião escrito por outra pessoa, como é muito corrente… Alguém escreve o guião e depois vem o realizador e filma-o… Isso nunca aconteceu comigo. Eu era escritor. Mesmo que as ideias de raiz não fossem minhas, como em alguns casos em que filmei adaptações, como o «Domingo à Tarde», que se baseia num romance, ou «A Promessa», que se inspira numa peça de teatro, eu sempre escrevi os guiões: para mim, escrever, sentir a plástica da escrita, a plástica da palavra, é muito importante. E eu transmiti isso para os guiões. Digamos que sempre fui romancista – ou ficcionista literário. A parte literária é muito importante para mim. A dimensão audiovisual do cinema era um certo tipo de extensão que ajudava a transmitir de outra maneira o que eu dizia em literatura. Em teatro dizem-se as coisas de uma maneira, numa certa forma de expressão, no cinema dizem-se de outra e em literatura em outra. Há certas coisas que digo literariamente que não consigo dizer em cinema. E inversamente: há coisas que faço e transmito em cinema que não consigo transmitir literariamente. São meios diferentes, artes diferentes, têm lógicas comunicacionais diferentes, e é por isso que certas adaptações de romances para cinema desagradam a muitas pessoas. Porque quando leram os romances visualizaram as coisas de uma maneira que não corresponde àquilo que vêem, depois, nos filmes… os actores não se parecem com as figuras que imaginaram, por exemplo… E, depois, não gostam dos filmes, que até podem ser muito bons, enquanto cinema. Trabalhar no cinema foi uma experiência muito importante para mim, porque me permitiu criar um tipo de formas de expressão, para transmitir determinadas coisas, que foram fascinantes de descobrir. Não consigo exprimir literariamente certos sentimentos que consigo colocar em filme com um actor, se ele for bom e eu souber dirigi-lo bem. O actor, com um simples piscar de olhos, uma expressão, uma contracção no rosto ou outro movimento, transmite sentimentos que dificilmente seriam descritos ou dificilmente ficariam tão bem num romance, ou então exigiriam páginas e páginas de descrição literária. O cinema teve essa importância, mas, ao mesmo tempo, fui sempre escrevendo: nunca deixei de escrever ficção. Não publicava, porque, fazendo cinema, tinha de viver dele. E muitas das coisas que filmei nem sequer foram coisas que me interessaram muito: era o chamado “cinema alimentar”, era um cinema que me permitia pagar a renda da casa e alimentar a família, documentários promocionais ou cinema publicitário…. Pronto, lá realizava, de vez em quando, uns filmes de longa-metragem que tinha interesse em fazer, mas nunca deixei de escrever. Contudo, nunca me preocupei em publicar. Tinha muita coisa escrita, novelas, contos, até um romance começado, mas não tinha tempo de procurar editor. Quando o cinema começou a abrandar… Porque não foi cortado de repente… o corte aconteceu a pouco e pouco. Foi, praticamente, desde que fiz «Os Abismos da Meia-Noite» que começou a haver uma relutância da parte dos júris do Instituto de Cinema em financiar aquele tipo de cinema “esquisito”. Aliás, com «Os Abismos da Meia-Noite» já tive dificuldade, porque o próprio Ministério da Cultura da altura… Imagine!, houve uma directora-geral que se meteu com o argumento do filme, contestando-o: “mas isto sai muito caro, estes cenários, esta fantasia toda”… E eu lá tive de argumentar com uma senhora, uma funcionária que eu nem sabia quem era – e já não estava no tempo da censura, que, nesse tempo, eu tinha mesmo de argumentar, senão os gajos cortavam tudo. Entre esse filme e «Os Emissários de Khalôm»«Os Abismos da Meia-Noite» estreou em 1984, mas é de dois anos antes, por aí, e «Os Emissários de Khalôm» é de 1987, por isso está a ver que têm cinco anos de diferença, cinco anos que passei sem filmar. Quer dizer, sem filmar, não, porque filmei que nem um desesperado, para sobreviver. Fiz programas para a televisão, documentários, fiz trinta-por-uma-linha, mas não fiz o cinema que eu queria. Depois, lá consegui fazer «Os Emissários de Khalôm», com muita dificuldade, porque o júri estava muito relutante. A seguir, se não me engano, fiz «A Maldição de Marialva», que foi uma encomenda da RTP, curiosamente. Tive sorte, porque não tive de passar pela aprovação de nenhum júri do Instituto de Cinema… Eu prefiro chamar-lhe Instituto de Cinema, genericamente, porque aquilo foi mudando de nome: era IPC, depois passou a ser IPACA, depois foi o ICAM, agora é o ICA… Eu chamo-lhe apenas Instituto de Cinema. O filme «A Maldição de Marialva» foi uma encomenda da RTP, feita no tempo em que o Fernando Lopes era director da programação da RTP2, se não me engano, quando o canal entrou num convénio com seis televisões europeias para se fazer uma série, a tal série «Sabbath», em que cada uma… a francesa, a italiana, a espanhola, a alemã… produzia um filme sobre um tema fantástico do seu próprio lendário tradicional, de referência. Depois, que faziam? Cada televisão oferecia uma cópia do seu filme às outras: ou seja, cada televisão produzia um único filme e recebia seis! É um esquema inteligente. Por acaso, é interessante. A RTP alinhou nisso e calhou-me «A Dama Pé-de-Cabra». Foi o João Palma Ferreira que escreveu uma espécie de sinopse que eu depois desenvolvi num guião, mais uma vez todo escrito por mim, diálogos e tudo, mas essa ideia básica, essa tal sinopse, foi do João Palma Ferreira. Mas o Instituto do Cinema não teve nada a ver com este filme, portanto não houve júri, foi uma escolha directa. Ou seja, quando a RTP teve essa ideia para essa encomenda perguntou-se “bom, então qual vai ser o tema português?” e o Fernando Lopes, que estava na direcção de programas e era muito amigo do João Palma Ferreira, como eu, veio dizer-me que ele tinha uma ideia, tinha uma sinopse para uma nova versão de «A Dama Pé-de-Cabra». Uma versão popular que o Palma Ferreira tinha ouvido na Beira Alta. Aliás, na zona de Linhares da Serra, de Trancoso, e da vila de Marialva, na Beira Alta, onde a gente filmou. Essa ideia foi aceite pelo produtor internacional, que estava a tomar conta desse projecto europeu, um espanhol chamado Antonio Cardenal, que até era um gajo porreiro. Contactei com ele muitas vezes, fomos a Madrid várias vezes por causa disto… Ora, ele perguntara “então quem é que vai escrever o guião e realizar o filme, da parte portuguesa?” e o Fernando Lopes respondera-lhe “aqui em Portugal só há um maluco capaz de fazer isto, que é o António de Macedo”. Foi assim que vieram ter comigo, perguntando-me se eu queria fazer um filme sobre aquele tema. Disse-lhes que sim. Já tinha, portanto, a sinopse… escrevi o guião, que foi aprovado internacionalmente pelo tal consórcio, e, pronto, fiz o filme, que ficou a chamar-se «A Maldição de Marialva». A seguir, fiz outro filme, «O Altar dos Holocaustos», que também foi uma encomenda para televisão, para a RTP, que é uma série de três filmes, mas, no fundo, todos somados, dão um filme só. É um tema fantástico, esotérico, passado na véspera de Natal, com todas as implicâncias místico-mágicas que isso tem… E, entretanto, eu continuava a concorrer todos os anos aos financiamentos do Instituto do Cinema. Entre 1987, com «Os Emissários de Khalôm», até 1989 ou 1990, com «A Maldição de Marialva»«O Altar dos Holocaustos» foi em 1992, por aí… Ou seja, todos esses anos fui concorrendo com vários projectos e fui, sempre, levando sopa – já com o argumento de que o meu cinema era um tipo de cinema que não interessava ao cinema português, que era muito esotérico, fantasioso de mais, não interessava a ninguém, etc. Mas, entretanto, como eu tinha recebido aquelas encomendas, «A Maldição de Marialva», «O Altar dos Holocaustos», mantive-me a trabalhar, incluso em publicidade audiovisual. Finalmente, houve um ano em que um dos guiões que eu apresentei, o «Chá Forte Com Limão», foi aprovado. Já tinha sido chumbado nos anos anteriores, mas naquele ano foi aprovado em virtude de uma circunstância inesperada e curiosamente divertida… O júri desse ano… O ano de 1992, se não me engano… era constituído, como de costume, por aqueles “intelectuais” que detestavam o tipo de cinema que eu fazia, mas estava lá um músico, o João Paes, que nessa altura trabalhava como compositor para os filmes do Manoel de Oliveira – ou seja, seria a última pessoa de quem eu poderia esperar que tivesse qualquer interesse nos meus filmes. Mas, é estranho, porque esse João Paes, que até compôs a música de, entre outros filmes, «Os Canibais», aquela cine-ópera do Oliveira, leu esse meu guião – que já tinha sido reprovado nos anos anteriores, mas, enfim, foi naquele ano que o João Paes foi jurado – e lutou sozinho contra os outros quatro ou cinco membros do júri para o impor, porque gostou muito do texto. Ele não me conhecia e eu só o conhecia de nome como sendo o músico das fitas do Oliveira. Ora, como ele se impôs de tal maneira, o que é que aconteceu? Como era o compositor do Senhor Manoel de Oliveira, os outros jurados não tiveram coragem de contrapor e agacharam-se. Assim, o «Chá Forte Com Limão» passou: porque o João Paes gostou do guião e, praticamente, impôs-se!… Quer dizer, ele não precisou de se impor, se calhar nem pensou nisso, mas como era compositor do Senhor Manoel de Oliveira, os outros membros do júri calaram-se e deixaram que o guião fosse aprovado. Eu fiz o filme, mas, a partir daí, já não houve nenhum “João Paes”. Não tive mais essa sorte.

DS – Foi uma angústia enorme.

AdM – Foi, em parte.

DS – Como se sentiu?

AdM – Senti-me irritado – ouça, e irritado de tal maneira que, desde essa altura, entre 1992 até ao ano 2000 ou 2001, estive numa guerra imparável, porque todos os anos concorria e todos os anos levava sopa. Em todos os variados projectos que apresentei. Um deles foi «O Pastor e o Magarefe», sobre o Frei Gil de Santarém, essa extraordinária figura do nosso lendário nacional (que existiu historicamente!), precursor e talvez inspirador do mito do Fausto e do seu pacto com o diabo.

DS – Que, depois, deu origem ao seu romance «As Furtivas Pegadas da Serpente».

AdM – Exactamente. Deu origem a esse romance. Isso aconteceu várias vezes: quando eu não conseguia fazer um filme, pegava no respectivo guião e transformava-os num romance. «A Sonata de Cristal» também é um exemplo desses: foi um guião que eu submeti, levando sopa dois ou três anos seguidos, e eu, depois, evidentemente, peguei nele e transformei-o num romance. O que aconteceu na década de noventa, e que, curiosamente, coincidiu em paralelo com a minha actividade de cineasta, é que uma colectânea de contos minha, «O Limite de Rudzky», que eu já tinha escrito anteriormente, ganhou uma espécie de menção honrosa num dos concursos de ficção científica da Editorial Caminho, ao qual concorri. Pensei: “olha, já agora, vou concorrer, para ver o que acontece”. Foi no ano em que o Luís Filipe Silva concorreu com «O Futuro à Janela». E foi assim que conheci o Belmiro Guimarães, que era director da colecção de fantástico e de ficção científica da Caminho. Eu não conhecia o Luís Filipe Silva, nem fazia ideia de quem era o Belmiro Guimarães – que me telefonou a dizer que eu não tinha ganho o prémio por uma unha negra, porque o júri ficara dividido entre dois textos, que, dos quarenta ou cinquenta que tinham sido recebidos naquele ano, eram os melhores. Os jurados ficaram divididos entre um trabalho e outro. Até que lá houve um desempate e optaram pelo livro do Luís, o que eu achei muito bem, porque o livro dele era muito bom e ele era um jovem, enquanto eu já tinha feito cinema, já tinha feito muita coisa. O Luís estava a começar, por isso ainda bem que o prémio foi para ele, mas como o júri também achou que o meu texto era bom… bom, enfim, quer dizer, pelo menos do ponto de vista deles… então decidiram recomendá-lo para publicação. Foi assim que o livro foi publicado, foi recomendado pelo júri. Coincidiu mais ou menos com a preparação do «Chá Forte Com Limão», que foi aprovado graças ao João Paes. Eu fiquei muito contente, porque o meu livro tinha sido editado. Assim, podia trabalhar em dois veículos: por um lado o cinema, por outro a literatura e em cada um deles eu podia transmitir coisas próprias de cada um; ou seja, complementavam-se. Como já tinha outro romance pronto, intitulado «Contos do Androthélys», aconteceu uma coisa que eu nem fazia ideia… Pensei “bom, agora tenho o romance pronto, lá tenho de andar outra vez a bater às portas dos editores”… E, enquanto pensava nisto, falei com a Rita Pais, que nessa altura era a revisora da Caminho… no fundo, era mais do que revisora, era aquilo que no meio editorial anglo-americano se designa por editor, que é um papel raro neste país, mas no qual ela era muito boa e até excelente, porque era compreensiva com os autores. Ela lia os textos dos autores e dava as correcções que tinha de dar, de acordo com aquilo que cada autor, realmente, queria dizer. Não impunha, como fazem os nossos revisores, que impõem as suas próprias manias, que é o pior que pode haver… como de costume, à portuguesa! Ela, não. Ela trabalhava à inglesa: lia o texto dos autores e aquilo que sugeria era aquilo que convinha, realmente, transmitir-se da melhor maneira, transmitir-se de maneira mais eficaz aquilo que os autores queriam dizer mas não tinham sabido lá muito bem. Ela ajudou-me muito nisso. Portanto, eu falei com a Rita Pais e disse-lhe “por acaso, agora, tenho outro romance, não sei o que lhe hei-de fazer”… O que é que eu pensava? Que tinha de andar, outra vez, a bater às portas dos editores. E ela diz-me: “então, mas você já publicou um livro connosco, publicámos «O Limite de Rudzky», você passou a ser um autor da Caminho”. Eu não sabia que eles tinham este esquema, nessa altura. “Passei a ser um autor da Caminho?” “Pois, agora é assim: qualquer original que você tenha, entrega aqui e a gente publica. Nem discutimos.” E eu disse: “Isto é genial.” E assim foi. Foi assim que eu percebi que tinha ali uma porta aberta, que, ainda por cima, tinha o beneplácito do Belmiro Guimarães, que se tornou um grande amigo nosso, quer dizer, da malta da ficção científica dessa época, e passámos todos a editar lá: o Luís Filipe Silva, o João Barreiros, eu, o Daniel Tércio, a Maria de Menezes, o José Manuel Morais, o Luís Sequeira… Editei por eles o romance «Contos do Androthélys», um calhamaço de trezentas e tal páginas… Entretanto, estreou o «Chá Forte Com Limão»: não teve sucesso nenhum. Esteve em exibição durante uma semana inglória no Cinema São Jorge, um bocado às moscas. As pessoas acharam-no detestável. Teve críticas horríveis que diziam que era um disparate pegado, de uma ponta à outra, que não tinha graça nenhuma. Portanto, a coisa morreu por ali… Em termos de cinema, continuei a concorrer ao Instituto de Cinema com guiões para mais filmes, como «O Pastor e o Magarefe», falámos dele há pouco, e outros… «A Pomba», também… e um outro, «Apaga a Lua e vem p’rà Cama»… Vários guiões, todos a levarem sopa, sempre com o mesmo argumento: o de que era um cinema que não interessava ao cinema português, que era um cinema “desligado das realidades”. E isto era feito de uma maneira tão despudorada que dava para ver claramente as manipulações dos júris sucessivos, pelos vários anos. Depois deu-se aquela cena desgraçada de eu reunir uma volumosa documentação para provar as manipulações e as fraudes e as corrupções que iam pelos júris, que eram descaradas, perfeitamente vergonhosas. Reuni essa documentação, entreguei-a toda ao provedor de justiça e fiz queixa, apresentei uma queixa formal. Isto já no ano de 2000 ou 2001, e o provedor de justiça demorou seis meses para responder-me e respondeu que estava tudo de acordo com a lei. Ora, que estava de acordo com a lei sabia eu, o problema era outro, era a lei que estava corrupta e prestava-se às manipulações mais vergonhosas. Porque a lei dizia que a apreciação dos júris é feita segundo tais e tais critérios, “qualidade artística e cultural”, “potencialidades estéticas”, “qualidade de comunicação com o público”, etc. … uma porção de coisas profundamente subjectivas às quais qualquer júri podia dar “pontuação zero” ou dar “pontuação dez” e estar sempre certo. Não sei se está a ver o grave que isto é. É evidente que critérios destes se prestam a ser manipulados, e a favorecer o “clube de amigos”. Portanto, eu fiz queixa formal e o bom do provedor, seis meses depois, responde-me que “não podemos fazer nada, porque está tudo de acordo com a lei”… Eu disse: “oh, senhor provedor, que está de acordo com a lei, sei eu… O senhor é provedor de justiça, não é provedor de leis: já o Platão sabia distinguir entre as leis, que são humanas e falíveis, e a justiça que é divina. Portanto, o senhor é provedor de justiça, quero que o senhor diga ao governo que esta lei está corrupta, que é uma lei que se presta a manipulações e tem de ser mudada.” Não me respondeu. A partir daí, não consegui fazer mais nada. Desisti. Até porque começou a ser caro apresentar um projecto: era preciso apresentar o projecto em oito ou nove exemplares, para os jurados e mais não sei para quem, com o guião completo, orçamento completo, os diálogos, as localizações, o dossiê de produção… Ficavam uns oito ou nove calhamaços que custavam aí uns trinta contos nessa altura e nós, na Cinequanon, não tínhamos dinheiro para estar a investir, constantemente, cerca de trinta contos de cada vez para ir tudo para o cesto. A partir daí, desisti. Pensei: “desisto de fazer cinema, continuo a escrever”. Porque, entretanto, fui publicando vários romances na Caminho. Publiquei o último em 2004, que foi a altura em que eles começaram a entrar no Grupo Leya e, a partir daí, fiquei sem editor: a Caminho enfeudou-se à Leya e o Belmiro Guimarães adoeceu gravemente e reformou-se e ele é que era o nosso sustentáculo lá dentro, era ele que gostava de ficção científica e de fantástico, porque os outros gestores da Caminho detestavam esse tipo de literatura “de género”. De maneira que, mal ele se reformou, os outros venderam-se à Leya e acabaram com a Colecção Caminho Ficção Científica, foi imediato. Sucedeu-se aquela história que já lhe contei, deles deitarem fora todos os livros que tinham nos armazéns, meus e de outros autores: foram todos destruídos. Ainda consegui publicar «A Conspiração dos Abandonados» na Zéfiro e «O Sangue e o Fogo» na Saída de Emergência e, agora, não sei… Agora estou à espera, estou pendurado. Estou assim… Ando a ver… Mas, de qualquer maneira, isto vinha a propósito da pergunta se houve um desgosto muito grande, digamos assim, do facto de não ter continuado a fazer cinema, devo dizer que sim e que não. Porquê? Digo que sim, porque, de certa maneira, foi um dos veículos através dos quais eu podia transmitir um certo tipo de coisas que em literatura talvez não conseguisse, mas, por outro lado, digo que não, isto é… Até senti um certo alívio, porque com o correr do tempo e com as dificuldades progressivas… É assim: este país foi-se afastando. Nos anos trinta e quarenta o cinema português era igual em qualidade técnica ao cinema europeu que se fazia nessa época. Você vê um filme português dos anos trinta e quarenta, como o «Inês de Castro» ou o «Camões», os filmes de grande espectáculo do Leitão de Barros, ou o cinema do António Lopes Ribeiro e do Jorge Brum do Canto, mesmo as comédias musicadas do Cottinelli Telmo, do Chianca de Garcia, do Arthur Duarte, e percebe logo que o preto-e-branco desses filmes tem uma grande qualidade técnica e que a movimentação de câmara e a música, não ficavam abaixo de um filme europeu da mesma época. Mas com o correr do tempo foi-se dando uma divergência cada vez maior entre o cinema português e o estrangeiro – de Badajoz para lá! E eu fui sentindo isso, cada vez mais acentuadamente, à minha própria custa: isto é, os nossos laboratórios e estúdios iam ficando cada vez piores à medida que o tempo avançava. Nos anos sessenta, consegui fazer um certo tipo de efeitos especiais nos laboratórios da Tóbis e da Ulyssea Filme, nos anos setenta, também, e nos anos oitenta, mas já com mais dificuldade… Nos anos noventa com maior dificuldade ainda… Foi preciso vir o apoio de Espanha para fazer certo tipo de efeitos para «A Maldição de Marialva», porque cá já não os conseguiam fazer – e mesmo assim não ficaram bem. A divergência – o sacrifício – de fazer cinema em Portugal foi-se acentuando. A partir do ano 2000 já não me apetecia fazer cinema em Portugal, porque sabia que não iria conseguir fazer aquilo que eu queria transmitir, por falta de substrato tecnológico, para não dizer económico. Ia ficar restringido a fazer umas coisinhas que coubessem numa caixa de sapatos e eu não estava interessado nisso. De maneira que o desgosto foi-se atenuando, porque fui passando para a literatura, que era uma coisa que já vinha de trás. Mas em relação à “censura” das candidaturas, sabe o que ela é? Acho que é uma desculpa estúpida da parte de quem não se quer maçar. Quer dizer, ter ideias dá trabalho, ter ideias é cansativo e gerir ideias novas é um frete do caraças: assim, se tudo não passar de uma espécie de papa de linhaça cinzenta é óptimo.

DS – Falando em cinzentismo, como é que o António conseguia fugir à outra censura, a dos cortes?

AdM – Era por subterfúgios, evidentemente, e, em outros casos, era mesmo por guerras. Havia guerras. Em alguns casos, não consegui. Foi o caso do «Nojo aos Cães», de 1970, que foi totalmente proibido. Só depois do 25 de Abril de 1974 é que começou a ser visto. E nem sequer passou nos cinemas: só passou, vagamente, na televisão, na RTP2, a uma hora assim um bocado tardia… Mas, em outros casos, era pela estupidez dos censores, que não viam certas coisas. Como, por exemplo, no caso de «Sete Balas Para Selma», que é de 1967. Há três canções, cantadas pela Florbela Queirós, e uma delas faz uma alusão ao Bertolt Brecht, que era uma figura maldita, e à música que o Kurt Weill compunha para as peças dele. Aliás, os censores tinham listas com os nomes proibidos: eles já nem liam qualquer texto desses autores, eram logo para cortar. E o Brecht estava na lista de autores que eram imediatamente cortados, tal como as canções do Weill. Ora, uma das canções cantadas pela Florbela… o Alexandre O’Neill, que era malandro e até estava, mais ou menos, ligado ao partido comunista que, nessa altura, ainda estava na clandestinidade, disse-me: “tenho aqui uma ideia…” Tinha uma espécie de pequeno poema, que pediu para ser musicado – a música é do Quinteto Académico –, uma espécie de homenagem à «Ópera dos Três Vinténs» do Brecht, a «Die Dreigroschenoper», musicada pelo Kurt Weill. Há uma personagem, o chulo, que é o… como é que ele se chama?... É o Mackie Messer, que na versão em inglês dessa ópera, a «The Threepenny Opera», se chama Mack the Knife. Na versão francesa é Maquereau, que, em francês, quer dizer “carapau”, mas também é o termo que eles utilizam para “chulo”. E o Alexandre O’Neill achou, em colaboração comigo, que íamos pôr a Florbela a cantar uma canção com frases musicais da balada «Mack the Knife» do Kurt Weill. É aquela canção muito conhecida. Portanto, o Quinteto Académico compôs uma música, com indicação minha e do O’Neill, com umas referências musicais à «Die Moritat von Mackie Messer», no original, e a própria letra do O’Neill dizia “O Maque, o Maquereau, que ninguém ama, ninguém amou”“Quando entra na sala, esvazia a sala à bala”… Ora bem, o censor deixou passar tudo.

DS – Porque não conhecia.

AdM – Porque não conhecia. Nem sequer sabia o que queria dizer Maquereau, porque, em português, “maque, maque, maquereau” até é uma coisa que fica gira. Bom… E eu lembro-me que, nessa época, o francês era a língua culta, o inglês não era muito usado, mas o francês sim e toda a gente sabia que Maquereau era o chulo, não é? Mas o censor não sabia, pronto. Isto só para dizer que há certo tipo de subterfúgios que podiam ser utilizados. Como aquilo não falava em Brecht, era só uma referência musical, o censor fez lá ideia!... Quem visse a fita reconhecia, de imediato, o que se estava a passar, mas o censor não reconheceu e deixou passar. Em alguns casos, não passou: no «Domingo à Tarde» queriam cortar-me quatro cenas, tive uma guerra com eles, ficaram duas… É claro, felizmente, eles não cortavam o negativo, portanto as versões que estão agora a ser exibidas no ciclo na Cinemateca são as integrais. Mesmo aquelas que foram cortadas pela censura estão a passar na integral, porque eles cortavam o positivo, que era a cópia de exibição, mas não tocavam no negativo, o que era óptimo! Com «A Promessa» foi muito complicado, porque eles queriam cortar duas cenas grandes ao filme, que são duas cenas muito importantes, a do diálogo dos padres e a final. Isso dava-me cabo do filme. Aquela fita sem aquelas duas cenas ficaria… E, aí, foi uma guerra em que fui eu e o Fernando Lopes, nessa altura presidente do Centro Português de Cinema, que era o produtor do filme, fomos discutir com o Moreira Baptista, que era Ministro do Interior. Depois de uma guerra muito grande, que durou uma tarde inteira a chatearmos a cabeça ao homem, ele por fim, já farto de nos aturar, sobrepôs-se à censura, mas avisou: “se alguém se queixar, eu tiro a fita de cartaz imediatamente”. Felizmente, ninguém se queixou, veio o 25 de Abril logo a seguir, porque a fita estreou em Fevereiro de 1974, e esteve não-sei-quantas semanas em cartaz e não houve problema nenhum.

DS – Apesar disso, o António nunca colocou ou, pelo menos, não imprimiu, uma tónica política muito forte nos seus filmes.

AdM – Não, porque, vamos lá a ver, a política estava implícita, porque naquela situação a política só podia ser uma: era lutar contra o regime. Depois criava-se uma monotonia e isso era visível em certas…

DS – A monotonia da oposição?

AdM – É um bocado isso, porque era sempre o mesmo Salazar.

DS – Ser subversivo já era aderir ao regime?

AdM – De certa maneira. Isso é muito óbvio num filme do Artur Ramos, uma pessoa de quem eu era muito amigo, o «Pássaros de Asas Cortadas», uma adaptação de uma peça de teatro do Luiz Francisco Rebello, que era um homem oposto ao regime, declaradamente oposicionista, com colaboração no guião do Luís de Sttau Monteiro, outro grande oposicionista ao regime. O próprio Artur Ramos era do partido comunista, na clandestinidade, claro. E o filme, todo ele, trata da luta de classes, chamemos-lhe assim. Tem a criadagem, por um lado, o chauffeur, depois os senhores ricos… Mas tudo isso para poder passar na censura acaba por ficar uma coisa… Bom, há para ali uns criados, há uns senhores… às vezes discutem… O filme é interessante, bem feito… O Artur Ramos fazia os filmes com muito cuidado, com um apurado perfeccionismo, digamos… Depois a censura cortou-lhe uma coisita ou duas, uma cena em que havia um quadro com um antepassado que está com ar de gozo enquanto uma personagem diz uma frase politicamente mais “ousada”, mas não muito… Ficou-se por ali, quase nem se nota que é um filme oposicionista. Outro em que se passou o mesmo foi «O Recado» do José Fonseca e Costa, que tem a ver com a clandestinidade do partido comunista. Há, assim, uns fulanos que desembarcam de noite e são perseguidos pela polícia e tal… Uma pessoa vê esse filme e a intenção, na ideia do Fonseca e Costa, é que aqueles tipos eram uns comunistas que queriam fugir para o lado de lá da fronteira e estavam a ser perseguidos pela Pide. Mas ninguém percebe nada. Dizia até o João César Monteiro, com aquela verrina que lhe era muito própria, que “bem, aquilo, no fundo, vê-se que é uma polícia de fronteira a perseguir o Partido Contrabandista Português”… andam uns contrabandistas por ali e a polícia de fronteira persegue-os. Quer dizer… O problema de fazer um cinema francamente político desembocava nisto: quer a gente quisesse, quer não. Isso não me interessava, era uma banalidade muito grande. Até porque dizer mal do regime era banal, tudo aquilo era obviamente banal, não acrescentava nada. Dizer-se “vivemos num regime de opressão”… Pois vivemos!... Em vez de estar a dizer o óbvio, preferi fazer um filme como «Nojo aos Cães», em que a opressão é dada de outra maneira. Tudo aquilo é subversivo, até os próprios estudantes que são subversivos acabam à porrada uns aos outros, às duas por três, porque não se entendem… Quer dizer, a subversão já está dentro da subversão: os próprios opositores também já não se entendem – o que, aliás, era verdade: a seguir ao 25 de Abril, com a liberdade declarada, as fricções vieram ao de cima, a UDP não se entendia com o PC, o POUS e o PCP-ML não se entendiam com o PC nem com a UDP, o MRPP não se entendia com a UDP nem com o PC nem com ninguém… No fim resultava uma palhaçada que não fazia muito sentido. E o «Nojo aos Cães» é, um bocado, o reflexo disso: tanto é que foi todo completamente proibido pela censura, como é evidente.

DS – Observando toda a sua carreira, o António comprometeu-se com que objectivo? Qual é a mensagem que a sua obra tem? Ou seja, agarrando em todos os filmes, todos tão diferentes, qual é o seu único compromisso?

AdM – O meu único compromisso é a liberdade de expressão. A liberdade do criador. Fundamentalmente, é isso. É o artista ter uma ideia, seja ela qual for: política, esotérica, metafísica, não importa, materialista… O artista tem uma ideia e tem de ser livre para exprimir essa ideia até ao limite da imaginação. O problema é quando não se tem nada para… Há um autor espanhol, não me recordo do nome dele, mas é muito conhecido, que diz “maldito o artista que não tem nada para dizer”. É esta a minha grande mensagem, também. Faço minhas as palavras deste autor anónimo, cujo nome não recordo com muita pena.

DS – Mas quem não tem nada para dizer não é artista.

AdM – Ah, mas aí é que está… Nós vemos muitas obras que estão por aí, obras artísticas, filmes… até bons filmes… Mas espreme-se aquilo e… A “Nouvelle Vague” toda, na minha opinião, é uma cosmética.

DS – Foram experiências.

AdM – Foram experiências, mas cosméticas que, no fundo, estão a disfarçar…

DS – Agora vamos filmar com a câmara aqui, agora assim…

AdM – …estão a disfarçar a falta de ideias. Repare que a gente vê os filmes da “Nouvelle Vague” e vê que eles não têm, rigorosamente, ideias nenhumas. Têm ideias estéticas, sim senhor, experiências, uma maneira fresca e nova de dizer as coisas, como não se dizia antigamente… Falam com muita graça e sensibilidade sobre coisa nenhuma.

DS – É como a experiência do Guericke, do Otto von Guericke, a dos hemisférios de Magdeburgo, agarrados pelo vácuo… O vácuo tem uma força extraordinária.

AdM – Exactamente!

DS – O vazio tem uma força extraordinária!

AdM – Exactamente, lá está! É a força do vazio. É isso mesmo. Há muitos filmes e romances que a gente espreme e diz “espera lá, o que é que este gajo quis dizer com isto?…” Vemos uns filmes muito bonitos, muito bem feitos, bem filmados, à francesa, não é?, com uns diálogos que até têm graça, mas o que é que eles querem dizer? Não querem dizer nada. Zero. Não têm uma única ideia por trás. Isso é que me horroriza. O artista tem de ser livre: que diga o que quiser, desde que tenha coisas para dizer. “Maldito o artista que não tem nada para dizer.” Há artistas que são artistas e não têm nada para dizer, é horrível. Têm só o prazer de mexer na matéria. Ou escrevem muito bem ou pintam muito bem ou filmam muito bem, mas não têm nada para dizer. E o que eu quero transmitir com os meus filmes é o seguinte: é preciso ter ideias! Mesmo que sejam contestáveis, mesmo que não sejam certas, mesmo que sejam grandes disparates. Podem ser, mas desde que dêem discussão, desde que ponham as pessoas a pensar, quer estejam de acordo ou não estejam. Alcança-se um objectivo. É isto que eu quero transmitir, que é muito importante: artistas, sejam livres! Esgotem a imaginação até ao máximo dos limites – para além dos limites, de preferência.

(Continua.)