sexta-feira, 13 de maio de 2016

"No Muro": um conto.


Este conto foi publicado originalmente em 2012 na colecção Biblioteca Digital do Diário de Notícias, numa iniciativa conjunta desse jornal e da Escritório Editora, que reuniu contos originais de vários escritores portugueses. Porque hoje me falaram nesse título, lembrei-me de publicá-lo aqui nos Cadernos de Daath para que possam relê-lo ou descobri-lo. Gosto muito de todos os contos que escrevi para a Escritório Editora (a minha obra preferida desse conjunto será, provavelmente, Réptil, que podem encontrar no livro Contos de Terror do Homem-Peixe, uma co-edição de 2007 com o MOTELx, o festival de cinema de terror de Lisboa) e este No Muro é, para mim, bastante especial. 


No Muro
A primeira vez que ele abriu um livro, descobriu uma nota disfarçada entre as folhas: crestada como uma flor prensada, parecia mais velha que o volume, porém, na sua cabeça, infinitamente mais valiosa. De pé, sozinho na biblioteca que o pai lhe legara, ele desfolhou o livro em busca de mais notas, mas não encontrou nenhuma; escolheu outro título e procurou novamente.
Nenhuma nota. Só palavras.
A biblioteca era enorme, homomérica, e, sob o ruído do desumidificador que estava sempre ligado, ele especulou sobre as estantes desquiciadas pelo peso e compreendeu o trabalho que teria para folhear todos os livros à cata de mais notas. Enfiou a mão no bolso e, para ganhar coragem, agarrou aquela que achara há uns instantes. Só havia uma maneira de realizar a tarefa sem enlouquecer: todos os dias subiria até à biblioteca e, durante uma hora, sentar-se-ia no chão diante de uma pilha de livros para manuseá-los à procura de dinheiro escondido. Seria como se tivesse um trabalho a meio-tempo – e, como tal, prometera a si próprio que nunca subiria à biblioteca aos fins-de-semana.
Como se fosse um faroleiro de outrora, que todas as manhãs oleava as lâmpadas, polia as lentes e soava, se fosse caso disso, o sinal de alerta de nevoeiro, ele subia diariamente à biblioteca, antes de ir para o escritório, e no decorrer de uma hora revistava com zelo duas ou três dezenas de livros. No final da primeira semana de pesquisa, achou um marcador, um bilhete de eléctrico, um pedaço rasgado de papel com um número de telefone apontado a esferográfica e um bilhete-postal por ortografar. Conheceu a caligrafia do pai no pedaço de papel rasgado, mas não reconheceu o número de telefone.
O cheiro dos livros era diferente do dos arquivos do escritório onde trabalhava: aquelas narrativas e aqueles ensaios, lidos de passagem nas matutinas montivagações, não tinham o mesmo cheiro dos recibos e das cópias dos contratos impressas em papel-químico. E, no entanto, tudo isso era feito de papel. Já matara imensos peixinhos-de-prata, asilados da luz entre os livros, mas no escritório, também empanturrado de papel, não havia nenhuns. Porquê? Estava a aprender que nem tudo o que era feito de papel era da mesma ordem – e ao folhear os livros, uns a seguir aos outros, aprendia mais coisas. Aprendia que os homens, todos feitos da mesma carne, tal como os livros e os recibos eram feitos do mesmo papel, não eram iguais: havia homens que eram mais como os livros e existiam outros homens que eram mais como os recibos e separavam-nos uma distância intransponível, uma trágica incomunicabilidade.
E ele estava a aprender a qual dos lados pertencia.
A biblioteca não tinha sido criada pelo pai, mas fora este que a reunira, logo havia nela um resquício de humanidade: uma bibliopagia antropodérmica. Poderia ele partilhar dela? Da humanidade do pai? Ter dentro de si uma faúlha de física quasi-divina ou, por outro lado, ser tão destituído desse dom quanto os livros estavam, aparentemente, desprovidos de notas?
Quantos mais investigava, mais compreendia o quão lhe faltava em cultura, em inteligência. Em poucos meses, a lembrança da nota iniciática, guardada numa gaveta da mesa-de-cabeceira, quase se esvaecera e o vero propósito das deslocações à biblioteca tinham, cada vez mais, a mira do estudo. Não consistia numa leitura atenta, antes a que um pássaro faria se conseguisse ler: saltitando de tomo em tomo, ora debicando mais num, ora menos em outro; todavia, desse modo, sem qualquer sistematização temática, autoral ou editorial, ele satisfazia em pleno a recém-adquirida curiosidade. Às vezes, lembrava-se de uns livros, vistos há muitos anos nas mãos do pai, mas ficava na dúvida se, com efeito, reparara neles ou não. Provavelmente, reconhecia-os apenas das suas observações peripatéticas diante das estantes. Ainda guardava tudo aquilo que ia encontrando entre as páginas e, certo dia, espantou-se ao achar um velhíssimo bilhete de identidade de um indivíduo que nunca tinha visto: o tempo tornara a foto num tasselo mal distinto, em que mancha e luz teimavam em não se aglutinar, logo criando abismos em que borrões brancos ofuscavam a fisionomia do fulano; também a assinatura desaparecera, à excepção de caracteres oxígonos que nem a graptomancia seria capaz de desvendar. Que relação existira entre o seu pai e aquele sujeito? Arrepiou-se-lhe a espinha com uma emoção terrível, regressada da infância, que sentia quando via os pais a falar com estranhos: de facto, eram estranhos para ele, porque para os pais eram amigos. Só através do contacto com os estranhos é que se percebe o quanto não se sabe tudo acerca daqueles que conhecemos – e, nesse sentido, todos os livros eram estranhos para ele: amigos do pai, nunca seriam, verdadeiramente, seus amigos. O que não impediu que ele se lhes afeiçoasse, como as meninas se afeiçoavam aos prometidos maritágios.
Tanto se apegou à colecção que, a dada altura, durante a noite, despertou com um pavor insuportável: e se os livros pegassem fogo? Ou fossem roubados? A grande sala no piso superior da casa não era um lugar suficientemente livre de perigo para a biblioteca, mas para onde poderia transferi-la? Com surpresa, a solução surgiu-lhe de repente: já formada, transparente, sem ter sido sequer metodizada – como ele gostava.
Construiria um muro.
Nesse dia, consultada a lista telefónica e contactados os serviços de que precisava, deu início à tarefa de carregar todos os livros para o jardim. Em frente do velho muro que o circulava, levantaria um novo, feito de tijolos ocos – e em cada tijolo guardaria um livro. Uma vez terminado, o muro inexpugnável conservaria a biblioteca de uma maneira mais segura que qualquer aposento. Evidentemente, não poderia voltar a olhar para os livros, mas, bem vistas as coisas, essa perspectiva agradava-lhe: pertencentes somente à memória, as palavras lidas ganhariam um cunho sagrado – sagrado, porque devotando-as ao enclausuramento, as sacralizaria.
Perdeu a noção do tempo gasto a erguer o muro, mas não seria improvável que tivesse passado todo o Verão no jardim a assentar tijolos, porque os dias murcharam – e não podia ser um efeito iatroquímico, criado pela fadiga em conjunção com os raios do Sol em relação à altura do muro, porque este era mais comprido que elevado. Subiu pela última vez à sala do andar superior e observou o muro desse nobre – e vazio – ponto de vista. A verdadeira biblioteca estava em baixo, no jardim, dentro do muro: palavras envoltas pelo barro.
No fundo, não era isso um homem?
Palavra enroupada pelo barro, feito, temporariamente, carne?
Esta retornaria ao pó após a morte, mas e a palavra? A palavra não retornaria a parte alguma, pois de nenhuma parte viera: ia. Ia e reverberava pelo cosmos – se não infinitamente, quase. E o bom de ser-se quase infinito é que, desse modo, é-se eterno.
Quando ele morreu, o muro manteve-se no jardim. E manteve-se depois do jardim ter desverdecido e, em redor, a casa ter-se deteriorado e perdido a beleza. O musgo mimava o muro e entre as frinchas dos tijolos também cresciam pequenas flores parasitas. Os miúdos agarravam-se a elas ao transpô-lo e, ao descer, arrancavam-nas.
Tinham-se habituado a fumar às escondidas, encostados ao muro; riam alto e divertiam-se a pintar personagens de banda desenhada nos tijolos. À noite, casais saltavam o muro para namorar, também às escondidas, encostados aos tijolos, recheados de livros, e neles riscavam os nomes e votos de cumplicidade. Do mesmo modo que, às escondidas, as milícias do partido autoritário, que, entretanto, conquistara o poder nas eleições mais recentes, gostavam de executar a tiro os indesejáveis contra o muro: em principal, os escritores, os pensadores.
Abatiam-nos e queimavam-lhes os livros.
Um livro ao ser incendiado dá sempre mais cinzas que as palavras que tem: monossílabos cinisíacos – forragem para cinorécticos. Em pouco tempo, deixou de haver livrarias, de haver bibliotecas – só havia columbários.
Aquela propriedade abandonada por todos e por tudo, escutara vozes de alegria, murmúrios de intimidade, estrompidos de armas e quase imperceptíveis gemidos de padecimento. No entanto, o musgo não se ia embora, nem as flores deixavam de brotar pelas frinchas entre os tijolos. O muro perdurava: picado por projécteis, salpicado de sangue, garatujado de personagens infantis e nomes riscados com canivetes e moedas. Sob essa crosta derivativa, estavam os livros invioláveis.
Uma emparedada e secreta biblioteca.
A única que existia.
Preciosa.
No muro.
Aquele era um lugar tremendo de transgressão, amor, insegurança e morte – mas era, talvez por isso, sagrado.
Um lugar que tinha como alma a Palavra.